Ensino superior no Brasil: muito acesso, pouco resultado - Blog A CRÍTICA

Últimas

Post Top Ad

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Ensino superior no Brasil: muito acesso, pouco resultado

Imagem: Brasil 61


Por César Silva (*)


Dados recentes da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) expõem uma realidade incômoda sobre o ensino superior brasileiro e que já não pode mais ser ignorada. Ao analisar os indicadores internacionais, fica evidente que o Brasil enfrenta desafios estruturais profundos que comprometem não apenas a formação de estudantes, mas também sua competitividade em relação a países da própria América Latina e, sobretudo, aos padrões da OCDE.

Entre os sinais mais preocupantes estão a baixa taxa de conclusão e a alta evasão. Trata-se de um problema persistente ao longo das últimas décadas: o sistema simplesmente não consegue reter seus alunos. Segundo o relatório Education at a Glance 2025, cerca de 25% dos estudantes brasileiros abandonam a graduação ainda no primeiro ano, praticamente o dobro da média de 13% observada nos países da OCDE.

O impacto desse fenômeno é que apenas 24% dos brasileiros entre 25 e 34 anos possuem diploma de ensino superior, menos da metade da média de 49% registrada nos países da OCDE. Ou seja, o país até ampliou o acesso, mas falha em transformar esse acesso em formação efetiva. A pergunta que permanece sem resposta é por que os alunos não ficam?

Uma análise apressada poderia atribuir esse desempenho à falta de recursos. No entanto, os dados mostram o contrário. O Brasil investe cerca de 4,4% do PIB em educação, patamar próximo ao dos países da OCDE. O gasto anual por estudante, em torno de US$ 15.600, também se alinha à média internacional. O problema, portanto, não parece estar no volume de investimento, mas na sua qualidade e eficiência. É o paradoxo do sistema brasileiro: investe-se relativamente bem, mas entrega-se pouco.

Parte dessa distorção está na forma como o ensino superior se expandiu no país. Nas últimas décadas, o crescimento ocorreu majoritariamente via setor privado e educação a distância (EaD). Hoje, 88% das instituições de ensino superior são privadas e concentram cerca de 78% das matrículas, o equivalente a 9,4 milhões de estudantes, segundo o Censo da Educação Superior de 2024.

Essa expansão acelerada trouxe consequências relevantes. O EaD, que ampliou o acesso, também se tornou o epicentro da evasão, com taxas superiores a 40%. Ao mesmo tempo, a relação entre alunos e professores revela uma disparidade significativa: enquanto nas instituições públicas há cerca de 10 alunos por docente (abaixo da média da OCDE), nas privadas esse número chega a 62 alunos por professor, muito acima da média internacional de 18.

Essa diferença não é apenas estatística. Ela reflete modelos pedagógicos distintos e evidencia a fragilidade da mediação educacional, especialmente nos primeiros anos de formação, justamente o período mais crítico para retenção dos estudantes.

Mesmo no setor público, onde a relação aluno-professor é mais favorável, isso não garante, por si só, qualidade acadêmica. Ainda assim, reforça a importância do acompanhamento próximo e do suporte pedagógico como fatores centrais para a permanência e o sucesso dos alunos.

O novo marco regulatório do ensino a distância, estabelecido pelo Decreto nº 12.456/2025, surge como tentativa de resposta. No entanto, sua efetividade ainda é incerta. As regras seguem em fase de implementação, sem metodologia de avaliação plenamente definida, e o ceticismo já começa a se consolidar antes mesmo de seus efeitos serem medidos.

O cenário que se desenha é preocupante. A baixa qualidade da formação compromete a capacidade do país de formar profissionais produtivos, inovadores e capazes de gerar valor, seja no mercado de trabalho, na criação de novos negócios ou no desenvolvimento tecnológico.

O Brasil envelhece como nação, mas não avança na mesma velocidade em sua capacidade produtiva. Esse descompasso impõe limites claros ao crescimento econômico e à inserção competitiva do país no cenário global. O desafio agora não é apenas ampliar o acesso, mas garantir que ele resulte em formação de qualidade. Caso contrário, continuaremos investindo muito para formar pouco e, adiando mais uma vez, o futuro que nunca chega.


(*) César Silva é diretor-presidente da Fundação de Apoio à Tecnologia (Fundação FAT)

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Post Bottom Ad

Pages