Por Lorena Zapata, diretora de novos negócios e sustentabilidade da Engeper*
Cerca de 35 milhões de brasileiros ainda não têm acesso à água tratada, segundo o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento, o SNIS, do Ministério das Cidades. Em um país que concentra aproximadamente 12% da água doce superficial do planeta, de acordo com a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico, esse número não indica escassez natural, mas falha de gestão e atraso técnico. O problema não está na disponibilidade, está na incapacidade de transformar recurso em serviço. E isso decorre de decisões que, há décadas, priorizam expansão física sem incorporar ganhos de eficiência.
Os próprios indicadores operacionais expõem esse descompasso. Mais de 90 milhões de brasileiros vivem sem coleta de esgoto e apenas cerca de 52% do volume gerado é tratado, conforme o SNIS. Isso significa que quase metade da carga orgânica produzida no país continua sendo despejada diretamente em rios e reservatórios, pressionando sistemas de captação e elevando o custo do tratamento de água. Trata-se de um ciclo regressivo. Quanto menos se trata esgoto, mais caro e complexo se torna produzir água potável. Ainda assim, a resposta dominante segue sendo ampliar redes, como se o gargalo fosse exclusivamente de cobertura e não de desempenho.
A Baía de Guanabara sintetiza o custo dessa escolha. Após sucessivos programas públicos e aportes bilionários, a recuperação segue incompleta e irregular. Relatórios do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro apontam que metas históricas continuam distantes, apesar do volume de recursos investidos. O padrão se repete porque o modelo adotado privilegia obras extensivas e soluções convencionais, com baixa capacidade de adaptação e resposta lenta. O resultado é previsível. Gasta-se mais para corrigir menos, enquanto a degradação avança em ritmo superior à recuperação.
A incorporação de tecnologias como a eletrodiálise reversa altera essa lógica ao atuar diretamente na eficiência do sistema. Ao viabilizar o tratamento de águas salobras e o reuso de efluentes com menor consumo energético e maior seletividade na remoção de sais, essa abordagem reduz a dependência de mananciais já pressionados e diminui a carga lançada no meio ambiente. Não se trata de substituir infraestrutura, mas de qualificá-la. Segundo a International Desalination Association, o reuso de água cresce globalmente como resposta à escassez, não apenas em regiões áridas, mas em economias que buscam segurança hídrica como ativo estratégico. O Brasil segue à margem desse movimento, apesar de reunir condições técnicas para avançar.
A objeção mais recorrente é o custo inicial dessas tecnologias. Esse argumento ignora o peso das ineficiências atuais. As perdas na distribuição de água no Brasil giram em torno de 37%, de acordo com o SNIS, o que representa bilhões de metros cúbicos desperdiçados antes mesmo de chegar ao consumidor. Esse volume perdido exige captação, tratamento e bombeamento adicionais, pressionando tarifas e investimentos. Somado a isso, estudo do Banco Mundial indica que crises hídricas podem reduzir o crescimento econômico em até 6% do PIB em regiões mais afetadas. A conta da ineficiência já está sendo paga, apenas não aparece como linha explícita de investimento.
O novo marco legal do saneamento introduziu metas e ampliou a competição, mas não altera, por si só, a qualidade das decisões técnicas. Sem priorizar eficiência e reuso, o país continuará expandindo um modelo que entrega pouco diante do que consome. O Brasil não precisa ampliar o diagnóstico, precisa corrigir a direção. A manutenção do padrão atual não é conservadorismo, é desperdício institucionalizado. A segurança hídrica dependerá menos da quantidade de obras e mais da capacidade de operar melhor o que já existe, com tecnologia aplicada onde hoje há perda, poluição e baixa produtividade.
*Lorena Zapata é especialista em sustentabilidade industrial, diretora de novos negócios e sustentabilidade na Engeper Ambiental e Perfurações, com vasta experiencia em implantação da tecnologia de eletrodiálise reversa (EDR) como transição ecológica para indústrias.
*Fundada em 2009, a Engeper Ambiental e Perfurações é uma empresa familiar e a única no Brasil a executar gestão hídrica 360°. Com mais de 45 anos de experiência, a Engeper detém o recorde do poço artesiano mais profundo da América Latina para abastecimento industrial, com 1.667 metros de profundidade. Comprometida com a sustentabilidade, a Engeper é aliada do Pacto Global da ONU e oferece serviços de perfuração, monitoramento por telemetria e manutenções em todo o território nacional e na América Latina.


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