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quinta-feira, 9 de abril de 2026

O Home Office e a Paciência Divina



Pus-me a ler a Bíblia, não por devoção súbita — que não a tive jamais —, mas porque certa roda de amigos, mais piedosa que perspicaz, houve por bem declarar-me cético inveterado, desses que negam o milagre antes mesmo de lhe abrirem a porta. Resolvi, pois, investigar o caso; não por fé, mas por curiosidade, que é a forma mais honesta de religião entre os espíritos desconfiados.


Confesso-vos desde logo: o efeito foi contrário ao esperado pelos zelosos missionários de minha conversão. O crente, observei, confia em excesso; acredita com tamanha pressa que raramente se detém a compreender aquilo mesmo que professa. Lê-se muito; entende-se pouco; afirma-se tudo.


Tomemos o Êxodo, por exemplo, livro de aventuras divinas e impaciências humanas. Deus envia Moisés para libertar o chamado povo escolhido. Ora, aqui começa minha perplexidade: se o Criador fez toda a humanidade, por que motivo haveria de preferir um grupo específico? A explicação histórica — que raramente frequenta os sermões — é que os antigos hebreus, como quaisquer vizinhos da Antiguidade, admitiam outros deuses, cada qual responsável por sua clientela terrestre. Jeová seria, por assim dizer, o patrono particular daquela gente, um arranjo quase administrativo do sagrado.


Séculos depois, o Nazareno — espírito mais universal que tribal — desloca o eixo da fé. Põe a maior demonstração de crença na boca de um soldado romano, estrangeiro e ocupante, e ainda ousa diminuir a distância entre judeus e samaritanos, esses primos religiosos tratados como parentes inconvenientes em jantar de família. Foi, convenhamos, uma reforma teológica feita sem assembleia nem votação.


Mas voltemos ao deserto, que é onde a humanidade revela sua verdadeira vocação para reclamar.


Moisés liberta o povo: surgem pragas, mares que se abrem e prodígios dignos de crônica policial do sobrenatural. Mal atravessam a areia, o povo protesta: preferia a escravidão com cardápio garantido à liberdade com jejum. Chove maná — solução celestial para o problema alimentar. Cansam-se do maná. Pedem carne. Chovem aves. Tem até umas serpentes pelo meio, talvez convocadas pela paciência divina em declínio. Moisés sobe ao Sinai; demora quarenta dias; tempo suficiente para que a multidão fabrique um bezerro de ouro e inaugure nova religião por falta de entretenimento. Por fim, a terra abre-se e engole parte dos revoltosos, medida extrema que revela menos a ira divina que o cansaço administrativo do Altíssimo.


Daí concluo — e aqui peço licença aos teólogos — que nem Deus parece disposto a gerir indefinidamente o departamento humano. Criar o universo talvez tenha sido tarefa simples; difícil é administrar expectativas.


A moral da história não é teológica, mas doméstica: se o próprio Criador enfrentou tamanha resistência logística, que dirá este humilde cronista diante de prazos, reuniões e criaturas igualmente insatisfeitas? Não nasci para profeta, muito menos para coach espiritual ou recepcionista das angústias alheias.


Peço, portanto, solução mais modesta e compatível com minha natureza filosófica: trabalhar em silêncio, de preferência em casa, onde ao menos o milagre cotidiano consiste apenas em o café não esfriar antes da última linha.


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