Há muitos anos a prefeitura de nossa cidade se transformou, para todos os efeitos práticos, em uma empresa de shows. Não se trata de metáfora exagerada, mas de constatação empírica: a máquina administrativa, os recursos públicos, o calendário oficial e as próprias expectativas da população giram em torno de eventos musicais, palcos montados às pressas e atrações nacionais pagas a peso de ouro. Diante disso, a pergunta que intitula estas linhas não é retórica, mas exigência de reflexão. Por que se consegue comprar os eleitores de Caicó com festas? Respondê-la impõe remontar às estruturas profundas da política brasileira, sobretudo em seus quadrantes interioranos.
O ideal de cidade — esse conceito que nos legaram os antigos — remete à Atenas democrática, onde o conjunto dos cidadãos, reunidos em ágora, discutiam, decidiam e executavam a coisa pública. Ali a política era exercício cotidiano de liberdade e igualdade perante a lei. Nossa realidade, entretanto, é outra. A cidade do interior do Brasil — e Caicó não foge à regra — tem, via de regra, um dono. Não um proprietário formal, mas um senhor dos mecanismos de poder, um coronel difuso que controla empregos, contratos, favores e, por consequência, os votos. Historicamente, não houve política nessas paragens, mas sim relações de dependência pessoal.
É preciso lembrar, com Hannah Arendt, que a política começa onde terminam as necessidades. Enquanto o cidadão estiver submerso na luta pela sobrevivência — por um prato de comida, um emprego público, um favor que lhe permita remédio ou funeral — não há espaço para o debate livre entre iguais. E o Brasil, ao longo de quase toda sua história, foi um país profundamente miserável. Essa miséria não é apenas econômica: é sobretudo política. Em Caicó, ainda hoje, não existe política no sentido grego ou arendtiano. O que existe são eleições periódicas, nas quais o eleitor médio não vê mais interesse do que a possibilidade de vender o voto por algum benefício imediato. Quem ousasse fazer política de verdade — no sentido de criticar estruturas, organizar o povo como classe, romper com a lógica do favor — seria rapidamente eliminado, seja pela violência simbólica da exclusão, seja pela física, tantas vezes silenciada nos anais locais. Porque a cidade tem donos, e os donos não toleram concorrência.
O eleitor brasileiro, especialmente o eleitor do interior, não faz política: segue alguém. Sua adesão não se dá a programas, ideias ou plataformas de governo, mas a pessoas das quais espera proteção. Tudo o que vem do poder público — asfalto, posto de saúde, escola, show — chega como favor pessoal do prefeito, e não como direito conquistado. Daí a gratidão, sentimento político por excelência das sociedades pré-democráticas. Os prefeitos do interior do Rio Grande do Norte são quase sempre populares não porque governem bem, mas porque encarnam a figura do benfeitor. As pessoas sonham com um emprego na prefeitura, ou guardam lembrança do prefeito médico que as atendeu na madrugada, ou do prefeito advogado que livrou o filho de uma pequena encrenca judicial. O voto, então, não expressa escolha racional: expressa lealdade pessoal.
Nesse quadro, os shows entram como benesse suprema. O prefeito não oferece ao povo direitos, mas presentes. Proporciona ao homem simples a oportunidade de ver, de perto, seu cantor preferido — experiência que, fora da festa patrocinada, lhe seria inteiramente inacessível. A música alta, a multidão, a cerveja gelada, o sentimento de participação em algo grandioso: tudo isso é atribuído à generosidade do chefe do executivo municipal. Eis aí o populismo em sua forma mais depurada e eficiente. Nos últimos anos, as prefeituras do Brasil — sobretudo as do Nordeste e do interior de estados ricos — tornaram-se empresas de shows, porque descobriram que esse é o caminho mais curto para a reeleição.
Em Caicó, o fenômeno se avolumou de forma assustadora. A prefeitura vive em torno de shows. O orçamento se curva às atrações. As secretarias municipais se transformam em produtoras eventuais. A oposição, quando existe, limita-se a reclamar do cantor contratado ou do valor do cachê — nunca da lógica perversa que transforma o cidadão em espectador passivo e o voto em mercadoria de baixo custo. Enquanto essa estrutura se mantiver, enquanto a festa for o coração da gestão, a pergunta que nos fizemos continuará a ter uma resposta cruel: compram-se os eleitores de Caicó com festas porque, em Caicó, nunca se lhes ensinou que política é outra coisa.



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