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quinta-feira, 21 de maio de 2026

A geopolítica das “commodities” demanda uma política industrial

Imagem de Arquivo/Agência Brasil


Por Paulo Feldmann, professor da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA) da USP


Geopolítica é, resumidamente, o estudo das relações de poder, influência e disputas entre Estados/Nações. Nasceu há mais de 130 anos como uma forma de se estudar o poder militar e territorial das nações. Seus conceitos foram muito utilizados nas duas guerras mundiais do século 20.


Mas, neste século 21, houve um desdobramento conceitual muito grande, e autores contemporâneos como Michael Klare e Daniel Yergin mudaram a definição inicial para adaptá-la aos conflitos hoje existentes no mundo, motivados sobretudo por questões relacionadas a recursos naturais estratégicos, cadeias produtivas e disputas tecnológicas.


Nesse contexto, é interessante observar que o Brasil passou de uma posição periférica quando predominava a definição militar/bélica, para ser um país estratégico dentro dessa nova definição, face à riqueza em recursos naturais.


O fato é que a geopolítica sempre tratou de poder, mas agora ser rico em commodities é que significa ser poderoso. É por isso que hoje está cada vez comum o termo “geopolítica das commodities”. As commodities podem ser agrícolas, energéticas e minerais – e o Brasil é muito rico em todas elas. Basta verificar o que está acontecendo agora com o petróleo, fertilizantes e outros bens chamados “estratégicos”. O suprimento se tornou uma questão geopolítica vital para o mundo inteiro.


E é impressionante como o Brasil possui ativos valiosos: além de sermos uma potência agrícola, somos também um dos mais importantes atores do mundo nas questões energéticas e minerais. Ou seja, em quase tudo o que hoje define o poder global, nosso país é protagonista.


Mas então por que ainda não avançamos como um país de destaque, que consegue oferecer boas condições de vida, renda e salários condizentes a toda sua população? Quais são os gargalos?


Um dos principais problemas está na nossa incompetência em agregar valor às commodities. Temos que saber valorizá-las no mercado internacional de forma a obter receitas muito maiores.


Vejamos o caso do suco de laranja: o Brasil é o maior exportador mundial desse produto, respondendo por cerca de 75% do comércio global e fornecendo aproximadamente 50% de todo o suco consumido nos Estados Unidos. No entanto, a estrutura de negócios brasileira foca majoritariamente na exportação do produto concentrado a granel, deixando a distribuição final no mercado norte-americano para empresas locais. Ou seja, quem vai a um supermercado em Nova York toma suco de laranja brasileiro, mas embalado e distribuído por uma empresa de lá, que define e impõe a sua marca.


Na área energética, temos uma das matrizes mais limpas do mundo, com predomínio de água, vento e sol na geração da eletricidade. No entanto, 95% de todo o equipamento de energia solar usado – os painéis fotovoltaicos – são comprados da China, e isso há mais de dez anos. Claro que já poderiam estar sendo fabricados por aqui.


Na área eólica, a situação é um pouco melhor, porque as turbinas pelo menos já são aqui fabricadas, mas predominantemente por empresas de fora e quase nada por empresas de capital nacional. Por que não exigir transferência de tecnologia para as empresas locais como faz a China?


Mas talvez o caso mais gritante esteja na mineração. As terras raras são o exemplo mais emblemático, pois possuímos 23% das reservas mundiais, mas não sabemos extraí-las e muito menos refiná-las, deixando essas tarefas para a China, que é quem faz a maior agregação de valor e fica com o maior filão.


Em suma, estamos na era da geopolítica das commodities e temos boa parte dos produtos que o mundo precisa. No entanto, por falta de uma visão estratégica, não temos um papel protagonista. Falta uma visão de futuro para o País. Qual o plano do Brasil para daqui dez ou 15 anos ? Ninguém sabe – porque simplesmente não existe.


Precisamos deixar de ser um mero fornecedor de commodities em estado bruto para, assim como a China, nos transformarmos em fabricante de bens valiosos. Isso demanda política industrial.


Não dá mais para acreditar que o mercado resolverá tudo. Pode até resolver… mas nunca a nosso favor.

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