Daniel Mazza, com mais de 15 anos de atuação no mercado financeiro, explica por que o acesso perdeu força e por que curadoria, execução e transparência ganham espaço em investimentos
São Paulo, maio de 2026 – A B3, a bolsa do Brasil, registrou 205.949 novos investidores em produtos de renda variável em 2025, um crescimento de 4% em relação ao ano anterior. Com isso, o número total de investidores nesse segmento se aproxima de 5,5 milhões, com um volume sob custódia de R$ 635 bilhões, alta de cerca de 20% frente ao fim de 2024. Esse avanço reforça a ampliação do acesso ao mercado de capitais e ajuda a explicar por que a chamada “arquitetura aberta”, que por anos foi o principal diferencial competitivo de plataformas independentes de investimento, começa a perder força como fator de distinção no mercado financeiro brasileiro.
Com a ampliação do portfólio de produtos por bancos tradicionais e a evolução das plataformas digitais, o acesso a fundos, crédito privado, ativos internacionais e alternativas deixou de ser exclusivo, e passou a se tornar um padrão. Nesse novo cenário, o que antes era vantagem competitiva se consolida como infraestrutura básica, deslocando o foco para curadoria, explicação e execução.
Esse movimento ganha relevância em um contexto de crescente complexidade para o investidor. Com mais opções disponíveis, aumentam também os desafios de tomada de decisão, além da pressão por maior transparência, governança e alinhamento de interesses. A lógica de “prateleira aberta” já não resolve o principal problema, de transformar abundância de produtos em decisões consistentes e resultados sustentáveis ao longo do tempo.
Para Daniel Mazza, sócio-fundador da MZM Wealth e especialista com mais de 15 anos de atuação no mercado financeiro, a mudança é estrutural. “Arquitetura aberta virou algo comum. Hoje, praticamente todos os grandes participantes do mercado oferecem acesso amplo a produtos. O diferencial competitivo deixou de ser o ‘o que’ e passou a ser o ‘como’: como selecionar, como explicar e como executar com disciplina”, afirma.
A seguir, o especialista destaca seis transformações que explicam essa virada no mercado:
1. Commoditização da arquitetura aberta
O acesso a produtos, que durante anos funcionou como um diferencial relevante, hoje já não separa mais quem está à frente de quem apenas acompanha o mercado. Bancos tradicionais e plataformas digitais ampliaram seus portfólios de forma consistente, reduzindo a vantagem que antes existia em torno da arquitetura aberta. Nesse contexto, a conversa evolui: mais importante do que oferecer acesso é a capacidade de usar esse acesso com critério, coerência e foco em gerar valor real para o investidor.
2. Paradoxo da escolha no investimento
A ampliação da oferta trouxe consigo um efeito menos óbvio, mas bastante relevante. Diante de um número cada vez maior de alternativas, o investidor passa a lidar com mais incerteza no momento de decidir, o que abre espaço para escolhas pouco consistentes ou excessivamente influenciadas por movimentos de curto prazo. Sem um direcionamento claro, a abundância deixa de ajudar e pode, na prática, dificultar o processo.
3. Curadoria como novo alfa
É nesse ambiente que a curadoria ganha outro peso. Mais do que apresentar opções, torna-se essencial saber selecionar, combinar e sustentar decisões ao longo do tempo, construindo portfólios que façam sentido dentro de uma estratégia maior. O trabalho passa a exigir acompanhamento, consistência e uma leitura mais profunda de contexto, sempre conectada aos objetivos do cliente.
4. Explicabilidade e experiência do cliente
Com o aumento da complexidade, a forma como as decisões são comunicadas passa a ter um papel tão importante quanto as decisões em si. Conseguir traduzir cenários, riscos e escolhas de maneira clara, sem simplificar demais nem complicar além do necessário, é o que sustenta a confiança ao longo do relacionamento. Quem consegue fazer isso bem tende a construir relações mais estáveis e duradouras.
5. Execução como diferencial invisível
Boa parte do resultado não está apenas na escolha dos ativos, mas em como essa estratégia é colocada em prática no dia a dia. Ajustes de carteira, momentos de entrada e saída, gestão de liquidez e eficiência tributária acabam tendo um impacto direto no desempenho, ainda que nem sempre sejam percebidos com clareza. É esse trabalho contínuo, muitas vezes silencioso, que separa uma boa ideia de um bom resultado.
6. Conflitos de interesse ainda existem
Mesmo com mais acesso e mais informação disponível, os conflitos de interesse não desaparecem, eles apenas assumem novas formas, muitas vezes menos explícitas. Incentivos comerciais e estruturas de distribuição continuam influenciando decisões, o que torna ainda mais importante olhar para transparência e governança. No fim, a confiança passa a estar cada vez mais ligada à clareza sobre como e por que cada decisão é tomada.
Para Daniel Mazza, o momento representa uma evolução natural do mercado. “Estamos saindo de uma fase em que acesso era diferencial para um estágio mais maduro, em que o valor está na inteligência aplicada sobre esse acesso. Quem não fizer essa transição vai competir por preço. Quem fizer, compete por confiança e resultado”, conclui.


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