Embora o futebol ainda domine quando agrupado com termos como Copa e Seleção, o forte interesse por séries e música aponta para uma pulverização das paixões nacionais, segundo o novo "Mapa das Paixões Brasileiras"
A Ipsos apresentou nesta quinta-feira (07), durante o evento “Coração em Campo”, o estudo Mapa das Paixões Brasileiras. A partir de uma pesquisa online com 500 pessoas das classes A, B e C, entre os dias 24 e 27 de abril, o instituto formulou um ranking que aponta para uma pulverização de paixões nacionais. Somadas, as preferências diretamente associadas ao futebol – incluindo termos como “Copa do Mundo”, “futebol” e “Seleção Brasileira” – seguem sendo a maioria e correspondem a 21%. No entanto, a modalidade esportiva mais popular do país divide o topo das paixões com o consumo de séries e música, apontando para a criação de novos rituais diários de conexão e pertencimento no país.
Se analisadas individualmente, as paixões por séries e música aparecem em primeiro e segundo lugares no ranking (com 10,9% e 10,7% do share, respectivamente), com religiões (9%) em terceiro e Copa do Mundo (8,2%) em quarto. Depois, a lista das principais preferências brasileiras continua com viagem e gastronomia (7,4%), futebol (7,3%) e Seleção Brasileira (5,8%).
“O entusiasmo e o calor humano ainda definem a nossa identidade, servindo como uma válvula de escape para equilibrar o trabalho duro com o lazer. É interessante notar, porém, que o futebol masculino não reina mais sozinho e a atenção do brasileiro, que está cada vez mais crítico, se pulverizou. Esse espaço está sendo preenchido por outros rituais de entretenimento, com forte expressão do consumo de séries e música, além de manifestações esportivas, como Olimpíadas e o futebol feminino”, aponta Paula Soria, líder de marcas e mercado na Ipsos Brasil.
O Mapa Emocional do Brasileiro, presente no mesmo estudo, aponta que 1 em cada 4 pessoas (25%) relaciona sua paixão aos sentimentos de pertencimento e segurança (“paixão é estar junto e ser acolhido”). E, para 22%, ela está associada à diversão e conexão social (“tudo junto e misturado”), como o caso da Copa do Mundo.
“O brasileiro não sabe viver sem paixão, somos uma nação que se define pelo entusiasmo. Paixões estão ligadas a rituais, seja na reunião para assistir a Copa ou para juntar-se à família para ver um seriado, muitas vezes estão relacionados à socialização, sensação de pertencimento e felicidade. As marcas também podem ser paixões se tiverem a sensibilidade de gerar essa conexão por meio da empatia com o contexto cultural das pessoas”, analisa Sória.
Copa mais pragmática e menos ufanista
Para complementar o Mapa das Paixões Brasileiras em ano de Copa e de futebol em evidência, a Ipsos também analisou dados a partir de outros estudos e metodologias, incluindo a recente pesquisa nacional Ipsos-Ipec com 2.000 brasileiros, realizada entre os dias 24 e 27 de abril.
Os dados apontam para um evento mais pragmático, uma vez que 46% dos brasileiros se disseram desanimados com a Copa de 2026 e apenas 18% acreditam plenamente no título. Em 2014, o principal sentimento em relação à Copa era de “alegria”. Em 2026, os brasileiros dizem sentir “esperança”.
Na mesma linha, se em 2022 metade da população acreditava que a Seleção tinha muitas chances de ganhar a Copa do Mundo de Futebol Masculino, hoje, 49% declaram que ela tem poucas chances de vencer.
“O ufanismo verde e amarelo de pintar a rua e achar que ‘já ganhamos’, acabou. O torcedor está pragmático, tático e desanimado com a Seleção. Agora, ela interage com o evento mais como sinônimo de evento social — a desculpa perfeita para o churrasco e o encontro com amigos –, sendo o resultado em campo quase secundário”, complementa Paula Sória.
O estudo da Ipsos também aponta outros achados para marcas que estão associadas ao evento e à Seleção, como:
- 46% sabem dos patrocinadores da Seleção e citaram espontaneamente as marcas: Nike, Itaú, Vivo, Ambev, Cimed, Sadia, Guaraná, VW, iFood, Uber, Amazon, Azul e Google.
- Enquanto isso, 68% não sabem quais as marcas patrocinadoras da Copa. Os que sabem citam: Adidas, Coca Cola, Nike, Visa, Lenovo, Hyundai, Aramco, Qatar, Budweiser e McDonalds.
- Onde assistem: A maioria absoluta pretende assistir através de TV Aberta (65%), enquanto 39% mencionam Youtube ou rede social – confirmando a presença de multitelas durante os jogos (cerca de 2 telas mencionadas).
- Plataformas: Cazé TV (54%) e Globoplay (42%) dividiram a atenção daqueles que vão assistir online. Ainda, 36% citam Amazon Prime, 27% mencionam Instagram e 23% GE TV.
- A grande final é um evento imperdível: 62% pretendem assistir à Final da Copa, indiferente da presença da Seleção nesta etapa.
E nas redes sociais?
A Ipsos também utilizou analisou, por meio de sua área especializada em mídias sociais (Ipsos Censydiam), cerca de 700 mil publicações nas redes sociais entre 1º de novembro de 2025 e 20 de abril de 2026. O estudo complementar verificou como os brasileiros se expressam nas redes sociais sobre a chegada da Copa.
Um dos destaques é a grande negatividade que compõe a maioria dos posts, sendo 38% de viés negativo e apenas 16% positivos – o restante neutro. O torcedor abandona o ufanismo e foca no pragmatismo tático e na ameaça dos rivais, sendo que os principais temas das conversas são sobre jogadores (18%) e seleções rivais (17%).
A profunda quebra de confiança do torcedor também derrubou a reputação digital da CBF, da comissão técnica e de ídolos, como Neymar, que possui o menor “social reputation score” dentre os termos mais citados nos posts: Neymar (24 pontos), Ancelotti (25 pontos), CBF (27 pontos), Seleção (35 pontos) e FIFA (44 (pontos). O social reputation score é um sistema de pontuação proprietária da Ipsos, que sintetiza os principais critérios relacionados à reputação (sentimento, volume, influência).
Caminhos possíveis
Apesar do mau humor nas redes, a Copa não é vista apenas como entretenimento, mas como uma obrigação cultural sagrada. O histórico de dominância (1950-1970 e 1990-2010) criou a expectativa inegociável de que o Brasil deve ser protagonista, fundindo o torneio à identidade nacional. Os números ainda revelam que a Copa ocupa o topo absoluto da hierarquia esportiva. Os torcedores expressam que vencer uma única Copa carrega mais prestígio e peso cultural do que vencer campeonatos regionais.
Segundo Paula Sória, é possível analisar as paixões dos brasileiros para pensar a trajetória de construção de uma marca. “É a partir de uma escuta verdadeira e reconhecimento do outro que se entende o contexto em que o público está inserido, que se olha no espelho e ajusta a entrega de produtos e serviços. Desse modo, é possível constantemente se questionar, se autoprovocar e medir de forma contínua a saúde de uma marca”, reflete.



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