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quinta-feira, 21 de maio de 2026

O cérebro com burnout não volta ao normal só com descanso (ou com demissão)

Juliana Zellauy Divulgação/Arquivo Pessoal


Por Juliana Zellauy


O Brasil bateu recorde histórico de afastamentos por saúde mental em 2025. Segundo o Ministério da Previdência Social, o total ultrapassou 546 mil neste ano. Já os afastamentos por burnout cresceram 493% entre 2021 e 2024. 


Esses números são uma fotografia de um sofrimento coletivo que atravessa escritórios, fábricas e home offices. A explosão de casos revela uma verdade inconveniente que a Neurociência expõe com clareza: um cérebro esgotado não volta ao normal apenas com descanso, nem se cura com um pedido de demissão. 


A crença de que férias ou desligamento resolvem o problema ignora que o burnout altera a estrutura e o funcionamento cerebral de forma mensurável. Sob sobrecarga crônica, a amígdala, nosso centro de alarme, fica hiperativa, enquanto o córtex pré-frontal, responsável pelo foco e tomada de decisão, perde eficiência. O cérebro se remodela para o estado de alerta constante. Por isso, quem pede demissão exausto carrega o esgotamento para o próximo emprego, já que o circuito neural disfuncional não foi restabelecido. A pausa é essencial, mas sozinha não basta. É preciso treinar ativamente o cérebro para sair do piloto automático do estresse. 


Nesse quadro, as empresas são corresponsáveis e, com a atualização da NR-1 (Portaria 3.665/2025), agora têm a obrigação formal de gerir riscos psicossociais — metas abusivas, assédio, jornadas exaustivas — com a mesma seriedade dos riscos físicos e químicos. No entanto, a lei sozinha não treina cérebros. É aí que entra a Neurociência Positiva, que pode reconstruir os circuitos danificados pelo burnout com práticas diárias. 


O primeiro passo é interromper o alarme da amígdala hiperativa com protocolos de regulação, como o Mindfulness, que reduz sua atividade em até 20% em oito semanas, criando um intervalo entre o gatilho do estresse e a reação explosiva. Sobre essa base, reconstrói-se a motivação ao fortalecer o sistema de recompensa cerebral. Exercícios de reconhecimento entre pares elevam dopamina e serotonina de forma sustentada, reoxigenando a resiliência coletiva. Por fim, reativa-se o córtex pré-frontal com a "desconexão tática" por meio de micropausas intencionais e a realização de períodos de desconexão corporativa “blindados”, que devolvem clareza cognitiva e previnem o erro. 


Comitês de riscos psicossociais com métricas de fadiga e recuperação neurológica também geram alertas antes que o afastamento seja a única saída. As empresas precisam parar de oferecer palestras motivacionais pontuais e agir na causa-raiz. A cultura organizacional deve ser redesenhada para não adoecer, questionando quais comportamentos são premiados. Recompensar o “herói” sobrecarregado que faz horas extras e responde e-mails à meia-noite é validar um ciclo tóxico. 


Quando profissionais assumem o protagonismo do seu bem-estar e as organizações estruturam uma cultura genuinamente humana, o trabalho vira espaço de realização. Ignorar a saúde mental nos trouxe aos recordes de afastamento. A verdadeira Neurociência Positiva nos reconecta com nossa humanidade, mostrando que a cura não está no próximo recesso, mas em reequilibrar o cérebro para obter mais realização individual e coletiva. 

 

Juliana Zellauy é especialista em Neurociência e Comportamento, com formação em Psicologia Positiva e em Mindfulness, autora de Neurociência Positiva – Uma rota prática para cultivar o equilíbrio, desenvolver clareza mental e viver com mais leveza.


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