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sexta-feira, 29 de maio de 2026

Quase 30% dos brasileiros dizem não se interessar por vacinas

Um em cada dez brasileiros parou de tomar vacina na pandemia. Pesquisa mostra ainda menor adesão vacinal entre jovens, na região Norte e em grupos mais expostos à desinformação.

 

Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

Cinco anos após a pandemia, o Brasil continua majoritariamente pró-vacina, mas uma pesquisa nacional revela sinais de afastamento preocupantes. Enquanto 72,1% dos entrevistados declararam adesão aos imunizantes, o índice dos que disseram não aderir plenamente às campanhas de vacinação chega a 27,9%. Desse total, 9,9% afirmaram que não se vacinam, 9,2% abandonaram a imunização na pandemia de covid-19 e 8,8% preferiram não responder. O índice representa risco ao Programa Nacional de Imunizações, um dos pilares históricos da saúde pública no paísVEJA GRÁFICOS AO FINAL DO TEXTO
 

A adesão às vacinas não é homogênea e segue padrões. Entre pessoas com 60 anos ou mais, chega a 78,3%; de 45 a 59 anos cai para 75,5%; de 35 a 44 sobe para 78,1%. Nas faixas mais jovens a queda é grande: 62% entre as pessoas de 25 a 34 anos, e 62,9% de 16 a 24.
 

Regionalmente, os extremos estão no Sudeste, com 77,2% de adesão aos imunizantes, contra 62,5% no Norte.
 

A orientação ideológica também influencia o comportamento vacinal. Entre pessoas de esquerda, a adesão é de 80%, contra 63% entre as de direita – evidência de que a politização da vacinação ainda afeta decisões individuais. Diferenças aparecem também por religião: católicos apresentam adesão de cerca de 75,6%, ante 66% entre evangélicos. Já nos recortes de classe econômica e escolaridade, os índices são semelhantes.
 

“Os dados revelam que o enfraquecimento da vacinação ocorre em grupos com menor percepção de risco, mais suscetíveis à desinformação e em regiões com maiores desafios estruturais”, observa Pedro Arantes, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e coordenador do levantamento.
 

Dengue – O padrão de distanciamento se repete na vacina contra a dengue. Embora cerca de 70% dos entrevistados manifestem atitude favorável, apenas 56,7% pretendem se vacinar imediatamente. Outros 13,7% consideram a vacina importante, mas não prioritária, enquanto há ainda grupos que expressam indiferença (10,5%), incerteza (8,1%) ou desinteresse (6,7%), além de uma rejeição explícita minoritária (4,8%).
 

Nesse caso, o principal desafio é tanto a oposição direta a imunizantes, como a existência de ampla zona de hesitação que reduz a adesão efetiva. O recorte ideológico segue o mesmo padrão observado na vacinação em geral: entre pessoas de esquerda, 65% pretendem se vacinar imediatamente contra a dengue, índice que cai para 46,2% entre as de direita.
 

Para Arantes, o conjunto dos dados indica uma mudança gradual no comportamento da população. “O Brasil continua confiando nas vacinas, mas uma parcela crescente deixou de se vacinar”, afirma. Segundo ele, esse afastamento, concentrado em jovens, regiões mais vulneráveis e segmentos mais expostos à desinformação, representa um risco para a capacidade do país de responder a novas crises sanitárias.
 

Outros resultados da pesquisa – Além da adesão às vacinas, a pesquisa identifica mudanças na percepção da pandemia que ajudam a explicar esse cenário. Houve enfraquecimento da memória coletiva sobre a covid-19: caiu de 62%, em 2023, para 40,5%, em 2026, o percentual de brasileiros que acreditam que outra atuação do governo federal teria reduzido o número de mortes.
 

A percepção sobre o período também é marcada por forte polarização política. Entre eleitores de Lula, 63,5% avaliam que o governo Bolsonaro errou na condução da crise sanitária, percentual que cai para 20,8% entre eleitores do ex-presidente.
 

A agenda de responsabilização também perdeu força. O apoio à punição de crimes cometidos durante a pandemia caiu de 51,5% para 45% no período, ao mesmo tempo em que aumentaram os índices de indecisão e rejeição.
 

Para os pesquisadores, esses fatores estão interligados: memória da pandemia, apoio à responsabilização e adesão às vacinas caminham juntos. A redução da percepção de risco e o desgaste da memória coletiva ajudam a explicar o afastamento de parte da população da vacinação.
 

A pesquisa “Memória, justiça e reparação da pandemia de covid-19 e atual adesão às vacinas” foi realizada pelo Instituto Idea, com coordenação do Centro de Estudos Sociedade, Universidade e Ciência (SoU_Ciência), da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Foram entrevistadas por telefone 1.500 pessoas em março último. A amostra é representativa da população brasileira com 16 anos ou mais. A margem de erro é de 2,5 pontos percentuais, com nível de confiança de 95%. O SoU_Ciência realizou pesquisa semelhante em junho de 2023.











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