Por Felipe Vicentini Santi, especialista em agronegócio, com formação em Gestão Ambiental e Gestão em Agronegócio. Possui pós-graduação em Agricultura de Precisão, Engenharia Ambiental e MBA em Agronegócio, e é mestrando em Mudanças Climáticas. Atua há 18 anos no setor, com experiência em grãos e horticultura.
O debate sobre sustentabilidade no agronegócio brasileiro envolve, ao mesmo tempo, práticas já consolidadas no campo e discursos que ainda dependem de mais viabilidade técnica e econômica para se tornarem realidade. Entre as práticas concretas, o plantio direto se destaca por evitar o revolvimento do solo, ajudando a manter o carbono armazenado, reduzir erosões e preservar uma camada de palha sobre a superfície, sem a necessidade de queimadas após a colheita.
Por outro lado, algumas metas amplamente discutidas, como desmatamento zero e reduções muito agressivas de emissões de carbono, ainda se encontram mais no campo das intenções do que da execução prática em larga escala. Essas discussões, segundo a visão técnica do setor, precisam ser conduzidas com base em conhecimento aprofundado da realidade agrícola, considerando seus limites operacionais e produtivos.
Um dos principais desafios para a implementação de práticas sustentáveis no Brasil está no custo. A infraestrutura necessária para tornar uma propriedade mais sustentável exige investimentos elevados em equipamentos e tecnologias, o que pode tornar a adaptação economicamente inviável ou incompatível com o modelo produtivo da fazenda. Também é importante considerar que, em alguns casos, há uma resistência cultural associada à falta de informação sobre as possibilidades de inovação baseadas em estudos atuais. Esse cenário de desconfiança em relação à mudança e à adoção de novas práticas sustentáveis representa um desafio até que essas alternativas sejam reconhecidas como mais eficientes.
A transição para novos modelos produtivos exige uma reavaliação em diferentes dimensões - econômica, comercial e social - além da necessidade de garantir condições de remuneração compatíveis ou até superiores às práticas anteriores, de forma a viabilizar a adesão dos envolvidos.
A sustentabilidade no campo também é acessível de forma parcial, já que práticas como a preservação de rios e nascentes, a conservação do solo e o uso de produtos biológicos para controle de pragas já fazem parte da realidade de muitos produtores por terem viabilidade financeira. No entanto, tecnologias como energia solar e equipamentos como drones de pulverização ainda representam alto custo de aquisição e manutenção, dificultando sua adoção em larga escala.
Outro ponto relevante está na identificação de quando o discurso sustentável é usado apenas como estratégia de marketing. Isso costuma ocorrer quando não há comprovação dos dados apresentados ou quando o agronegócio é retratado apenas sob uma perspectiva negativa, sem base técnica ou vivência prática. A experiência no campo e o domínio do processo produtivo são fatores essenciais para diferenciar comunicação responsável de discurso superficial.
Em relação às tendências, o setor deve avançar nos próximos anos com maior uso de monitoramento via satélite, ampliação da utilização de produtos biológicos e maior adoção de biofertilizantes, fortalecendo práticas mais eficientes e ambientalmente adequadas.
Além disso, a sustentabilidade também está diretamente ligada às emissões de gases de efeito estufa no transporte da produção agrícola. No Brasil, o escoamento de grãos como soja e milho é feito majoritariamente por rodovias, por meio de caminhões, o que aumenta a emissão de carbono. Uma alternativa mais eficiente do ponto de vista ambiental seria mais investimentos em ferrovias e transporte fluvial, como trens e balsas, que conseguem movimentar grandes volumes com menor impacto por tonelada transportada.
De forma geral, a sustentabilidade no agronegócio brasileiro avança, mas ainda depende de equilíbrio entre viabilidade econômica, tecnologia disponível e conhecimento técnico aplicado. Mais do que discursos, o setor exige soluções práticas que considerem a realidade do campo e permitam evoluir de forma consistente e sustentável ao longo do tempo.


Nenhum comentário:
Postar um comentário