Cifras completamente homomórficas já funcionam na prática, mas ainda exigem poder computacional além do que os data centers atuais podem oferecer
Bruno Vaiano | Pesquisa FAPESP – Toda vez que você envia um prompt ao ChatGPT, suas palavras são transformadas em um código indecifrável antes de atravessar fibras ópticas e cabos submarinos rumo aos data centers da OpenAI no estado do Texas, nos Estados Unidos – ou em algum outro lugar do mundo. É assim que boa parte da informação do planeta trafega: criptografada. Mas proteger dados em trânsito não resolve tudo. Em algum momento, o servidor precisa decifrar a informação para processá-la — e é justamente aí que surgem as brechas.
Em 1995, o pioneiro da segurança digital Gene Spafford resumiu o problema dizendo que “criptografia sem um sistema íntegro equivale a investir em um carro-forte para levar dinheiro de alguém que mora em uma caixa de papelão para outra pessoa fazendo negócios em um banco de parque”. Ou seja, proteger os dados no caminho não adianta se emissor e destinatário continuam vulneráveis.
Nos últimos quinze anos, passamos a terceirizar cada vez mais funções à nuvem, do streaming ao armazenamento de arquivos e e-mails. A banda larga permite delegar nossas demandas computacionais a esses servidores remotos, mas isso exige enviar muitos dados para empresas com termos e condições de uso intermináveis.
O número do cartão de crédito é apenas a ponta de um iceberg de informações sensíveis que não devem estar na nuvem. Imagine, por exemplo, uma IA da área médica que analisa o prontuário dos pacientes e sugere diagnósticos: uma seguradora de saúde poderia usar esses dados para investigar o histórico de quem tenta contratar o plano — e, assim, negar clientes com doenças crônicas.
Por isso, um dos grandes objetivos da criptografia contemporânea é desenvolver um tipo de cifra que permita a um data center processar dados cifrados “às cegas” e dar o resultado correto sem precisar bisbilhotar o conteúdo. O nome dessa ideia é criptografia completamente homomórfica (fully homomorphic encryption, ou FHE, na sigla em inglês). Ela já é possível na prática — mas, no estágio atual de desenvolvimento, ainda é uma opção milhares a milhões de vezes mais lenta do que processar a mesma informação abertamente.



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