| Prefeitura Recife |
Por Roberto Salomão
As cidades não adoecem porque o clima mudou. Elas adoecem porque, durante décadas, deixaram de dialogar com ele. A impermeabilização extensiva do solo, a proliferação de fachadas herméticas, a verticalização dissociada da paisagem e a crescente dependência da climatização artificial consolidaram um modelo urbano frequentemente alheio às condições ambientais do território. Hoje, contudo, a elevação das temperaturas, a intensificação das ilhas de calor e a recorrência de eventos extremos revelam os limites desse paradigma.
No Recife, estudos recentes já apontam o aumento das temperaturas urbanas e o agravamento de fenômenos associados à ocupação intensiva do solo. Em cidades costeiras, densas e marcadas por profundas desigualdades socioespaciais, a emergência climática deixou de ser uma hipótese futura para se tornar uma realidade cotidiana, afetando diretamente a drenagem, a mobilidade, a infraestrutura, a saúde pública e a própria experiência de viver a cidade.
Diante desse cenário, uma questão passa a ocupar lugar central no debate contemporâneo: como projetar cidades capazes de conviver com o clima, em vez de insistir em combatê-lo?
Curiosamente, parte dessa resposta talvez já estivesse sendo construída em Pernambuco há quase um século. Entre rios, manguezais, ventos atlânticos e uma luminosidade intensa, arquitetos como Luiz Nunes, Acácio Gil Borsoi, Delfim Amorim e Armando de Holanda Cavalcanti desenvolveram uma arquitetura moderna profundamente comprometida com as características ambientais locais. Ventilação cruzada, sombreamento, cobogós, brises, integração entre espaços internos e externos e implantação cuidadosa das edificações não constituíam apenas opções formais, mas soluções técnicas capazes de transformar o clima em aliado do projeto.
Essa produção dialogava com uma tradição intelectual igualmente inovadora. No Manifesto Regionalista de 1926, Gilberto Freyre defendia que o Nordeste não deveria buscar sua modernidade na reprodução de modelos importados, mas na capacidade de interpretar o próprio território, reconhecendo o clima, a cultura e as formas de vida locais como fundamentos de uma arquitetura e de um urbanismo verdadeiramente brasileiros.
Cem anos depois, essa reflexão ganha um significado ainda mais amplo. O que antes era compreendido como afirmação da identidade regional revela-se, hoje, uma poderosa estratégia de adaptação climática.
O crescimento acelerado das cidades brasileiras, a supressão da cobertura vegetal, a impermeabilização do solo e a pressão crescente sobre a infraestrutura urbana fizeram com que temas antes tratados como complementares passassem ao centro das discussões internacionais. Conforto ambiental, drenagem sustentável, infraestrutura verde, requalificação de áreas consolidadas, reaproveitamento de edificações e desenho urbano sensível ao clima deixaram de representar apenas boas práticas ambientais para se afirmar como elementos estruturantes da resiliência urbana.
Ao mesmo tempo, uma nova transformação se impõe. Inteligência artificial, modelagem digital, sensores urbanos e sistemas inteligentes de monitoramento começam a redefinir a forma de planejar e gerir as cidades. O desafio consiste em assegurar que essas tecnologias reforcem — e não substituam — a inteligência territorial construída ao longo do tempo, evitando reproduzir modelos urbanos desconectados das especificidades climáticas e sociais dos territórios tropicais.
Talvez uma das maiores responsabilidades da arquitetura e do urbanismo contemporâneos seja justamente reconciliar inovação tecnológica, adaptação climática e identidade territorial. Nesse aspecto, Pernambuco possui uma contribuição singular: uma arquitetura que soube compreender o lugar antes de transformar a paisagem.
Não por acaso, a arquitetura tropical volta a ocupar espaço no debate internacional. Mais do que revisitar um importante capítulo da história da arquitetura brasileira, trata-se de reconhecer um repertório de soluções capaz de inspirar cidades mais resilientes, eficientes e humanas.
É nesse contexto que Pernambuco volta a assumir protagonismo. Nos próximos dias, pesquisadores, arquitetos, urbanistas de diversas instituições estarão reunidos para refletir sobre o legado da arquitetura moderna produzida em Pernambuco na primeira metade do século XX e sobre os caminhos que se abrem para as cidades tropicais diante das transformações climáticas e tecnológicas do século XXI.
Talvez, ao final, o maior desafio não seja construir cidades apenas mais inteligentes ou mais tecnológicas. Seja no Recife, no Nordeste ou em qualquer território tropical, a verdadeira questão continua sendo outra: como fazer com que nossas cidades voltem a dialogar com o clima, com a paisagem e com as formas de vida que lhes conferem identidade, beleza e permanência?
*Roberto Salomão é arquiteto e urbanista, presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Pernambuco (CAU/PE).


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