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quarta-feira, 17 de junho de 2026

As vibrações negativas do Brasil

Um governo que abandona agendas estruturais sempre que o sentimento se torna negativo ainda estará gerenciando o sentimento quatro anos depois — sem nada a mostrar. A “vibecessão” do Brasil é um problema real para o governo atual; mas ganhar o noticiário não é uma solução real.

Foto: Iano Andrade / CNI


por Laura Carvalho e Guilherme Klein


A economia do Brasil está indo bem sob quase todos os pontos de vista. O PIB cresceu cerca de 3% durante três anos consecutivos, o desemprego está em níveis historicamente baixos e a inflação caiu de um pico pós-pandêmico de mais de 12% para cerca de 4%. No entanto, com as eleições presidenciais se aproximando em outubro, o Brasil – tal como os Estados Unidos durante a presidência de Joe Biden – parece estar sofrendo uma “vibecessão”. Apesar dos dados macroeconômicos sólidos, metade dos brasileiros acredita que a economia piorou ao longo do último ano, enquanto só um em cada quatro considera que melhorou.


Essa desconexão não é nova. O período de 2022-24 foi um cemitério para os governantes em exercício no mundo democrático. Dos EUA e do Reino Unido à França e ao Japão, quem estava no poder pagou o preço por um choque que não conseguiu reverter apenas com o aperto monetário. O que tornou a tendência tão desorientadora foi o fato de ela ter persistido mesmo onde os rendimentos ajustados à inflação tinham aumentado. Esta dinâmica está agora bem documentada. Quando os salários sobem, as pessoas atribuem isso ao seu próprio mérito; mas quando os preços sobem, elas sentem isso como algo que lhes foi imposto. Suas perdas ficam então gravadas na memória, impedindo que a estabilização econômica seja plenamente valorizada.


O Brasil não é exceção. Em 2024, os 40% mais pobres do Brasil sofreram uma taxa de inflação mais elevada do que outros grupos, porque os aumentos de preços se concentraram em bens essenciais, e a aprovação do presidente Luiz Inácio Lula da Silvaentre os eleitores de renda baixa caiu quase 17 pontos percentuais. Embora a inflação para os 40% mais pobres tenha depois caído abaixo da taxa global em 2025, as memórias do sofrimento econômico permanecerão. Além disso, os grupos de renda média e alta também se afastaram de Lula, mesmo com o crescimento dos seus rendimentos reais e a contenção da inflação.


A vibecessão tem sido especialmente brutal para Lula porque os eleitores não estão comparando-o aos seus dois antecessores imediatos, que governaram com uma economia e crescimento médio que mal ultrapassava os 1,4% ao ano. Em vez disso, estão julgando-o em comparação com seus próprios dois primeiros mandatos (2003-2011), quando o crescimento do PIB foi, em média, superior a 4% e toda uma geração experimentou, pela primeira vez, mobilidade social verdadeira. Além disso, o primeiro mandato de Lula foi seguido por uma das piores décadas da história moderna da economia brasileira. Como a metade mais pobre dos brasileiros só voltou aos níveis de rendimento real de 2014 no mandato atual, o crescimento atual parece mais uma recuperação de perdas passadas do que uma prosperidade recém-conquistada.


A disparidade de aspirações agrava essa sensação. As redes sociais dissolveram o grupo de referência local que outrora definia o que era uma vida digna. Um trabalhador informal na periferia de São Paulo agora percorre os mesmos feeds que um consumidor de classe média em Seul ou Milão. Quando as aspirações ultrapassam a renda, a dívida das famílias preenche a lacuna. A parcela do rendimento dedicada ao serviço da dívida subiu de 22% em 2019 para 29,7% no final de 2025, enquanto mais de 80% dos agregados familiares estão endividados– nível máximo histórico no Brasil.


Pior ainda, com as taxas de juro dos cartões de crédito rondando os 14% ao mês, o serviço da dívida está comprimindo o rendimento disponível, alargando ainda mais o fosso das aspirações. Os aumentos das taxas de juro que deveriam controlar a inflação acabaram agravando as dificuldades financeiras que alimentam o pessimismo econômico. A política monetária está pondo sal na ferida socioeconômica.


Fora isso, há a questão da qualidade dos empregos. Os investimentos passados em educação criaram o maior grupo de formandos universitários da história do Brasil, mas o mercado de trabalho não acompanhou essa evolução. A percentagem de trabalhadores empregados abaixo do seu nível de qualificação subiu de 26% para quase 38% na última década. Com os brasileiros com formação superior lutando para alcançar a mesma prosperidade que seus pais, muitos estão chegando à conclusão perigosa de que as políticas macroeconômicas já não importam.


Quando uma eleição se aproxima rapidamente, a tentação para qualquer político seria abandonar o plano de longo prazo e focar em apaziguar os eleitores imediatamente. Tal abordagem surge com frequência sob a forma de controles de preços, créditos voltados ao consumo, transferências fiscais ou qualquer outra medida para criar a aparência de que “algo está sendo feito”.


Contudo, se um governo restringir sua agenda para se concentrar só na gestão do sentimento no curto prazo, acabará descobrindo que abdicou das únicas políticas que poderiam abordar as causas subjacentes à ansiedade econômica. Num país em desenvolvimento como o Brasil, o crescimento continua a ser a condição indispensável para todo o resto. Quando a economia abranda, são os mais vulneráveis que pagam primeiro.


É preocupante que a lição que muitos governantes tiraram da derrota dos democratas em 2024 seja que a política industrial não produz resultados dentro de um ciclo eleitoral. É preciso resistir a essa atitude. O desequilíbrio entre os níveis de educação e a criação de empregos ilustra precisamente onde a política industrial é necessária. Um governo proativo veria a transição verde como uma oportunidade, e não como um fardo.


A redução da desigualdade também é importante, e esta é uma área em que o terceiro mandato de Lula abriu novos caminhos. Depois de os dois primeiros governos de Lula terem concentrado a redistribuição na base da escala de rendimentos, ele começou agora a abordar a concentração no topo. No âmbito de uma reforma do imposto sobre o rendimento este ano, aqueles com rendimentos mais elevados enfrentam agora uma taxa mínima, e o governo poderia ainda ir mais longe. A justificação para fazê-lo não se resume só à justiça social. A tributação progressiva é a forma de criar espaço fiscal para o investimento público e os serviços sem recorrer a empréstimos com taxas que transferem o rendimento de volta para o topo por meio do serviço da dívida.


Além da redistribuição vertical, o Brasil também precisa de políticas horizontais para estabelecer pisos universais. As pesquisas mostram de modo consistente que as políticas com beneficiários amplos e difusos – como o salário mínimo ou os serviços públicos – constroem coligações mais resilientes do que as políticas direcionadas que classificam as pessoas em doadores e beneficiários. A redução da semana de trabalho, aprovada recentemente pela Câmara dos Deputados com 71% de aprovação pública, se insere nesta lógica. O mesmo se aplica aos subsídios aos transportes públicos e à expansão dos cuidados de saúde. O nível de vida europeu que os brasileiros vêem nos seus celulares se baseia não só em salários mais altos, mas também na socialização de parte significativa dos custos.


Isso não pode acontecer da noite para o dia. Um governo que abandona as agendas estruturais sempre que o sentimento se torna negativo continuará administrando sentimentos quatro anos depois – sem nada para mostrar.


A vibecessão é real; mas ganhar o ciclo noticioso não é uma solução. O antídoto está em moldar aos poucos a economia para que o crescimento chegue às pessoas, os serviços públicos reduzam os custos de vida e a estrutura de produção possa absorver a população que o sistema educativo formou. O Brasil tem todas as peças. Não deve perder a fé em sua capacidade de montá-las.




Laura Carvalho é Diretora de Prosperidade Econômica e Climática da Open Society Foundations e Professora Associada de Economia da Universidade de São Paulo. Sua pesquisa concentra-se na interseção entre macroeconomia e economia do desenvolvimento, particularmente na relação entre crescimento econômico e desigualdade de renda. Ela escrevia uma coluna semanal para a Folha de S.Paulo , o maior jornal do Brasil, e é autora de Valsa Brasileira: do boom ao caos econômico (Todavia, 2018).

Guilherme Klein é professor de Economia na Universidade Federal do Rio de Janeiro e coordenador de Política Macroeconômica no Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades.


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