Apesar da queda histórica registrada pelo IBGE, especialistas alertam que desigualdades regionais, métodos ineficientes e analfabetismo funcional continuam sendo entraves para a aprendizagem no país
São Paulo, 24 de junho de 2026 -- O Brasil atingiu em 2025 o menor índice de analfabetismo desde o início da série histórica iniciada em 2016. Dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que a taxa nacional caiu para 4,9% entre pessoas com 15 anos ou mais, o equivalente a 8,4 milhões de brasileiros que ainda não sabem ler e escrever.
Embora o dado represente um avanço importante, especialistas alertam que a queda no indicador não significa que o país tenha resolvido um dos problemas mais persistentes da educação brasileira. Os números revelam que os desafios permanecem profundos e desiguais. Mais da metade da população analfabeta do país, cerca de 4,8 milhões de pessoas, está concentrada na região Nordeste, onde a taxa chega a 10,6%. Entre pessoas com mais de 60 anos, o cenário é ainda mais preocupante, já que esse grupo representa 58% do total de brasileiros que não sabem ler e escrever.
Para Janaína Mourão, especialista em educação, pesquisadora em neurociência aplicada à aprendizagem e diretora pedagógica do IntraAct Brasil, o avanço estatístico precisa ser analisado com cautela, porque o país ainda não conseguiu universalizar práticas de alfabetização sustentadas por evidências científicas sobre como o cérebro aprende.
Segundo ela, embora o Brasil tenha ampliado o acesso à educação nas últimas décadas, o país ainda convive com fragilidades importantes no processo de alfabetização, em grande parte porque muitas redes de ensino adotaram abordagens pedagógicas sem respaldo consistente nas evidências científicas sobre como acontece a aprendizagem da leitura e da escrita. Como consequência, parte dos estudantes avança ao longo da vida escolar sem consolidar competências essenciais nos anos iniciais.
“Durante décadas, houve grande dispersão metodológica nas redes de ensino, muitas vezes sem alinhamento com o que a ciência da aprendizagem já demonstrou sobre como o cérebro aprende a ler. O resultado é que muitas crianças avançam de série sem consolidar as habilidades fundamentais de leitura e escrita. Alfabetização não pode depender de tentativa e erro”, explica.
A discussão se torna ainda mais urgente diante das metas estabelecidas pelo novo Plano Nacional de Educação, que reafirma a alfabetização no centro das políticas públicas e reforça o objetivo de garantir que a maior parte das crianças brasileiras esteja alfabetizada ao final do segundo ano do ensino fundamental.
Na avaliação da especialista, o debate educacional brasileiro ainda dedica atenção excessiva aos resultados esperados, mas pouco discute a qualidade das estratégias adotadas dentro da sala de aula. “Sem ensino estruturado, consciência fonológica, domínio das relações entre sons e letras, prática sistemática e formação docente contínua, as metas continuarão sendo mais fáceis de escrever do que de cumprir”, afirma.
Os dados divulgados pelo IBGE também reforçam uma desigualdade histórica que segue marcando a educação brasileira. Mesmo em um país cada vez mais conectado digitalmente, o acesso a uma aprendizagem de qualidade continua profundamente desigual entre regiões e grupos sociais.
O levantamento mostra, por exemplo, que milhares de crianças das regiões Norte e Nordeste continuam fora das creches por ausência de vagas ou pela inexistência de unidades próximas de suas residências. Entre adolescentes, estudantes pretos e pardos seguem apresentando índices menores de frequência escolar no ensino médio quando comparados à população branca. No geral, um em cada quatro jovens (25,6%) de 14 a 29 anos não tem interesse em estudar.
Para Janaína, isso demonstra que o acesso à tecnologia, sozinho, não resolve problemas estruturais da aprendizagem. “Os melhores resultados costumam aparecer onde há continuidade de política pública, formação baseada em evidências e acompanhamento rigoroso da aprendizagem. A desigualdade regional não é apenas econômica. Ela também reflete desigualdade no acesso ao conhecimento científico sobre como alfabetizar. Também é fundamental lembrar que a alfabetização precisa acontecer de forma rápida e eficiente, para que a criança, o jovem ou o adulto desenvolva sentimento de competência e sucesso”, analisa.
Educação de Jovens e Adultos
Ela lembra ainda que o desafio não se limita à infância. Na Educação de Jovens e Adultos, a necessidade de processos mais eficientes se torna ainda mais urgente, especialmente porque tempo e autonomia são fatores determinantes para manter estudantes engajados no processo de aprendizagem. A taxa de analfabetismo é de 14,1% entre os homens e 13,7% entre as mulheres com mais de 60 anos - quase 5 milhões de pessoas que não sabem ler e escrever um bilhete simples.
“Não faz sentido submeter adolescentes e adultos a materiais infantilizados ou a uma sequência de atividades aleatórias. É preciso usar abordagens compatíveis com a idade dos estudantes e alinhadas ao que a neurociência do desenvolvimento cognitivo já nos mostra: a leitura e a escrita avançam melhor quando há ensino estruturado, progressão lógica, prática deliberada e consolidação gradual das habilidades fundamentais. Quando a alfabetização é conduzida dessa forma, o êxito chega mais rápido”, explica.
Ao mesmo tempo em que o país comemora a redução do analfabetismo absoluto, especialistas chamam atenção para um problema menos visível, mas igualmente preocupante, o analfabetismo funcional. Nesse cenário, o indivíduo consegue reconhecer palavras, escrever frases simples e executar tarefas básicas, mas encontra dificuldades importantes de interpretação, compreensão textual e construção de pensamento crítico, o que compromete sua autonomia acadêmica, profissional e social.
Janaína enfatiza que alfabetizar verdadeiramente vai muito além de ensinar alguém a decodificar letras. “Costumo dizer que alfabetizar de verdade significa alcançar três objetivos. O primeiro é ler e escrever com fluência, ou seja, decodificar e codificar palavras com facilidade e automaticidade, como quem anda de bicicleta sem precisar pensar em cada movimento. O segundo é compreender o que se lê, sendo capaz de interpretar, relacionar informações, fazer inferências e elaborar entendimento a partir dos textos. O terceiro, muitas vezes esquecido, é amar ler, porque quem gosta de ler lê mais, amplia o vocabulário, aumenta o repertório cultural e continua aprendendo ao longo da vida”, ressalta.
Ela reforça que enfrentar o analfabetismo funcional exige ampliar o olhar sobre a alfabetização. “Combater o analfabetismo funcional exige ir além da decodificação, embora ela seja uma base indispensável. É preciso garantir fluência leitora, leitura em voz alta constante, desenvolvimento sistemático da interpretação de textos e ampliação permanente do repertório verbal dos estudantes. Quando esses elementos caminham juntos, a leitura deixa de ser apenas uma habilidade escolar e se transforma em ferramenta de autonomia, aprendizagem e desenvolvimento humano. O desafio do Brasil é garantir que a criança leia com fluência, com base em práticas cientificamente fundamentadas, compreenda profundamente o que lê e desenvolva uma relação positiva e duradoura com os livros e o conhecimento”, conclui.


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