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quinta-feira, 11 de junho de 2026

Deepfakes preocupam especialistas e podem afetar a liberdade do eleitor

Montagens realistas com inteligência artificial dificultam identificação de fake news e podem ameaçar a credibilidade do processo eleitoral neste ano

Conteúdos manipulados podem influenciar eleitores e dificultar a identificação do que é real nas redes sociais – Foto: macrovector/Magnific


Por Susana Oliveira - No Jornal da USP



Nos últimos anos, com o avanço da inteligência artificial, foi possível criar vídeos, imagens e áudios extremamente realistas. Conhecidas como deepfakes, essas montagens sintéticas têm preocupado especialistas, principalmente em períodos eleitorais, por conta da disseminação de desinformação e da dificuldade cada vez maior de diferenciar o que é verdadeiro do que é falso. O alerta está aceso para as eleições de outubro próximo.


Com a circulação rápida desses conteúdos nas redes sociais e aplicativos de mensagens, vídeos manipulados podem influenciar a opinião pública e gerar dúvidas no eleitorado. Para o especialista em Direito Eleitoral, Luiz Eugênio Scarpino Júnior, pós-doutorando da Faculdade de Direito de Ribeirão Preto (FDRP) da USP, identificar esse tipo de conteúdo tem se tornado um desafio até mesmo para usuários mais atentos. “Esta é uma tarefa cada vez mais desafiadora. Até porque aquilo que nós conhecemos como fake, na verdade, é adulteração sintética de vídeo, imagem ou som de forma realista.”


O especialista também alerta para conteúdos que circulam apenas em aplicativos de mensagens, sem qualquer confirmação em veículos jornalísticos ou agências de checagem. “Montagens geralmente com manchetes bastante sensacionalistas, é aquele conteúdo apenas circular por meios de comunicadores instantâneos, WhatsApp, Telegram e sem que isso esteja refletido dentro da grande mídia.”


Para ele, a imprensa ainda tem um papel importante no combate à desinformação. “Porque quer queira quer não, a grande mídia é quem faz a filtragem da imagem adequada sobre conteúdos e consegue avaliar de uma forma bastante razoável a verdade factual.” Além disso, ele destaca o trabalho das agências de checagem na identificação de conteúdos falsos que circulam nas redes sociais.


Impacto no processo eleitoral


As deepfakes têm potencial para influenciar diretamente a percepção dos eleitores sobre candidatos e partidos, principalmente quando exploram conteúdos emocionais e negativos. “Entendo que elas podem trazer uma dúvida razoável no eleitor, dependendo da circunstância, do momento em que ela circula, seja para criar uma dúvida no eleitor, seja para trazer nele um sentimento negativo sobre determinado candidato.”


Segundo Scarpino Júnior, uma das maiores preocupações são os conteúdos divulgados próximos ao dia da votação, quando há pouco tempo para contestação. “Eu acho que a principal preocupação com relação às fake news são aquelas que circulam às vésperas das eleições, não? Aquelas nas quais o próprio candidato ofendido não tem chance sequer de direito de resposta.”


O especialista explica que a Justiça Eleitoral já criou regras específicas para lidar com conteúdos sintéticos em campanhas eleitorais. “Então, daí a razão pela qual, inclusive, a Justiça Eleitoral trouxe um toque de silêncio de 72 horas com relação a conteúdos sintéticos.”


Ele afirma que o maior risco é comprometer a liberdade de escolha do eleitor. “Os principais riscos, portanto, são afetar a normalidade do processo eleitoral no sentido de trazer uma desestabilização, insuflar movimentos e desestimular votação.”


Nos últimos anos, a Justiça Eleitoral passou a desenvolver medidas para combater o uso irregular da inteligência artificial durante campanhas políticas. “A Justiça Eleitoral vem buscando se aperfeiçoar nos últimos quatro anos, principalmente, com relação à inteligência artificial, e nos últimos seis a oito anos com relação à desinformação, às fake news.”


Além da atuação da Justiça, o especialista defende uma participação mais ativa das plataformas digitais. “As plataformas devem exigir rotulagem de conteúdos sintéticos, elas não podem impulsionar quaisquer tipos de conteúdos com os quais não obedeçam às regras das resoluções eleitorais.”


Segundo ele, é importante que os eleitores entendam como funcionam os algoritmos, as redes sociais e os mecanismos de circulação de informações na internet. “Então a educação digital é uma necessidade de primeira ordem que, infelizmente, o Brasil ainda quase nada faz nesse sentido.”


Por fim, ele destaca novamente o papel do jornalismo profissional no combate à desinformação. “A mídia pode cada vez mais produzir e exercer o seu papel para que toda a população possa se cercar nesses momentos emblemáticos.”

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