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segunda-feira, 22 de junho de 2026

Hábito de leitura no Brasil patina, embora seja fundamental para o desenvolvimento psicossocial dos mais jovens

Cristina Padilha, escritora e mestre em Literatura Comparada, defende o estímulo à leitura como forma de capacitar crianças e adolescentes a viver em sociedade



O Brasil ainda não conseguiu firmar uma cultura de leitura de livros, apesar de ser um país com uma rica produção literária e muito afeiçoado às mais diversas manifestações artísticas. Pesquisas recentes apontam que o consumo de livros cresceu, mas a quantidade de leitores não acompanhou esse aumento. Para Cristina Padilha, escritora e mestre em Literatura Comparada, o estímulo à leitura se faz fundamental nos dias atuais, não apenas para a formação acadêmica dos jovens, como também para seu pleno desenvolvimento psicossocial.


“Diversas instituições de ensino dão enfoque à leitura, visando à aprovação de alunos em vestibulares concorridos, e buscam publicizar o desempenho desses jovens com a intenção de atrair novos estudantes. É um ciclo bem focado em mercado, que não forma necessariamente leitores, pessoas engajadas no mundo literário. Para estabelecer uma cultura de leitura em nosso país é necessária uma nova abordagem, considerando a importância dos livros como ferramenta para nossa formação humana, e não somente como uma porta de entrada para universidades concorridas”, pondera.


Conforme dados do Instituto Pró-Livro do Ministério da Cultura (2024), cerca de 47% dos brasileiros leram ao menos um livro nos três meses anteriores à pesquisa Retratos da Leitura no Brasil (o que os inclui na categoria de leitores). Paradoxalmente, de acordo com o Panorama do Consumo de Livros, da Câmara Brasileira do Livro, realizado pela Nielsen BookData, apenas 18% da população com dezoito anos ou mais adquiriu ao menos um livro nos últimos doze meses (entre 2025 e 2026), apontando um crescimento de dois pontos percentuais em relação a 2024.


“Esses números fazem parecer que há nichos muito específicos de interesse em livros, que compram os produtos e movimentam o mercado editorial. Mas a leitura, enquanto hábito, ainda não alcançou a maioria absoluta da população. Seria fundamental que toda a formação escolar estimulasse a leitura de uma forma mais abrangente, para que o livro integrasse a rotina dos mais jovens e contribuísse para o desenvolvimento psicossocial dos leitores”, diz.


Livros ensinam a lidar com emoções


Em “Conexões Tardias”, livro de estreia de Cristina Padilha, a autora aplica na prática suas percepções sobre o impacto da leitura na formação do indivíduo. A obra se insere nas atuais discussões sobre saúde emocional e qualidade de vida, acompanhando os desdobramentos da morte súbita de uma jovem e nos desafios de uma família atravessada pelo luto. “Busquei, com esse trabalho, colocar uma lupa sobre as tensões familiares que surgem perante a dor. Embora seja uma obra ficcional, ela dialoga com situações reais da sociedade”, acrescenta.


Para a escritora, a literatura cumpre um importante papel de refletir os anseios da contemporaneidade. “A partir dos livros, os jovens constroem uma nova visão de mundo, e isso seria fundamental para a criação de uma sociedade onde as pessoas se importam mais umas com as outras. Levar obras para a sala de aula que dialogam com os anseios da contemporaneidade pode transformar completamente nosso futuro”, ressalta.


Cristina Padilha pondera que, nas escolas, o estímulo à leitura precisa levar em consideração a faixa etária dos alunos, bem como equilibrar o ensino de clássicos literários e a inclusão de obras contemporâneas. “O importante é que os livros se façam presentes na vida das crianças e dos jovens,tornando-se, assim, instrumentos de uma prática prazerosa, e não apenas parte de um mecanismo para aprovação no vestibular. Isso sim vai conduzir nossa sociedade a um desenvolvimento cultural realmente relevante”, finaliza.

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