A avaliação dos insumos mostrou benefícios em diferentes fases do cultivo, especialmente durante a implantação dos pomares.
(Verônica Freira - Agência Embrapa) O uso de materiais que mantêm a umidade próxima às raízes das plantas pode ajudar os cajucultores do Semiárido a conviver com a escassez hídrica, que afeta principalmente a fase de implantação dos pomares de cajueiro-anão. Pesquisadores da Embrapa Agroindústria Tropical (CE) avaliaram a aplicação de biochar (biocarvão) e de hidrogel (gel que absorve grande volume de água) em diferentes fases do cultivo e obtiveram resultados positivos na produtividade da água, ou seja, na capacidade de produzir mais com menos recursos hídricos.
Em experimento com irrigação de salvação (técnica agrícola de emergência usada para fornecer água às plantas durante períodos críticos de seca severa ou estiagem prolongada), o hidrogel garantiu a sobrevivência de todas as mudas do clone BRS 226, com uma economia de 46% nos custos de irrigação. Em outro estudo, o biochar melhorou vários parâmetros de produção na cajucultura irrigada, resultando em pedúnculos (parte comercial do caju, conhecida popularmente como maçã) maiores e mais doces no cultivo desse clone, também conhecido como Planalto.
O pesquisador Rubens Sonsol, responsável pelos estudos, explica que, embora o cajueiro seja considerado tolerante à seca, a água é um dos principais fatores limitantes, em especial no primeiro ano de implantação do pomar. Além disso, é comum que o cultivo (predominantemente de sequeiro) seja desenvolvido em solos arenosos (Neossolos Quartzarênicos) com baixa capacidade de retenção de água, em um ambiente cuja estação chuvosa é pouco previsível em termos de início, quantidade e distribuição.
Sonsol pontua que as mudas enxertadas sofrem com o estresse da mudança de ambiente do viveiro para o campo e que os produtores podem perder até metade delas na fase de implantação dos pomares, devido às condições de solo e clima. “Essa mortalidade tem sido um gargalo técnico e econômico na implantação dos pomares. Tem impacto na produtividade porque requer investimento na aquisição de mudas de reposição e retrabalho no campo”, diz.
Ele acrescenta que enquanto a irrigação de salvação recomendada para implantar os pomares é de 25 litros por semana, com o uso do hidrogel foi possível manter todas as mudas vivas com 55 litros por ano. Portanto, Sonsol destaca, a utilização dos condicionadores de solo surge como uma estratégia de adaptação às mudanças climáticas, permitindo o uso mais eficiente da água de irrigação.
O pesquisador salienta que o biochar utilizado nas pesquisas foi preparado em fornos de tijolos rústicos (tipo caieira) em ausência de oxigênio, uma tecnologia acessível para pequenas e grandes propriedades. Outra vantagem é que o material pode ser fabricado na propriedade rural com os resíduos da poda dos cajueiros. Além disso, há relatos na literatura de que o biochar melhora a qualidade do solo em outros aspectos como fertilidade; presença de microrganismos benéficos; redução da acidez e sequestro de carbono.
Sobrevivência das mudas
O estudo avaliou o uso do biochar e do hidrogel (polímero hidrofílico) para aumentar a capacidade de retenção de água na zona radicular das mudas, ajudando-as a superar a fase crítica e reduzir a mortalidade no primeiro ano de plantio de um pomar de cajueiro-anão.
O melhor resultado foi obtido com o polímero hidrofílico: 100% de sobrevivência de mudas com uma economia de 46% nos custos de irrigação. A dose ideal foi de 29,56 gramas (g) por cova, que resultou na sobrevivência total com o menor consumo hídrico: 55 litros por planta ao ano. O cientista alerta, contudo, que doses excessivas (acima de 29,5 g) podem elevar a demanda hídrica, uma vez que o polímero retém a umidade de maneira a torná-la menos disponível para as raízes.
Outro experimento simulou as condições de sequeiro, com escassez extrema de água, e avaliou diferentes doses de biochar para a sobrevivência e o crescimento de mudas dos clones CCP 76 e BRS 226, no primeiro ano. A aplicação de quatro quilos (kg) por cova elevou a taxa de sobrevivência de mudas de 26% (grupo controle) para 68%.
“Os estudos comprovaram que o biochar melhora a retenção de água e a disponibilidade de nutrientes em solos arenosos, típicos das regiões produtoras de caju, que naturalmente sofrem com a baixa capacidade de reter umidade”, destaca o pesquisador.



Nenhum comentário:
Postar um comentário