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terça-feira, 2 de junho de 2026

IDH recorde demonstra importância de políticas públicas e transformações sociais

Apesar das melhorias, diz Fernando Coelho, disparidades marcam um país de dimensões continentais que esconde realidades muito distintas

O IDH é composto de três variáveis: educação, saúde e economia – Foto: Divulgação/Secretaria da Educação/SPSecretaria da Educação/SP


Jornal da USP - O Brasil atingiu o maior IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) da história, segundo estudo  divulgado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). A escala que mede esse índice vai de 0 a 1. O Brasil saiu de 0,744, registrado em 2012, para 0,805. Apesar do resultado histórico, as desigualdades regionais, raciais e de gênero continuam sendo um desafio para o desenvolvimento do País. 


O professor Fernando Coelho, de Gestão de Políticas Públicas da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP, explica que o desenvolvimento é uma variável estrutural. Isso quer dizer que a mudança depende de longo prazo para aparecer, além da cumulatividade de diversos fatores para além do econômico, como os fatores demográficos e sociais. “É muito importante, quando pensamos no desenvolvimento, que nós tenhamos um horizonte temporal de longo prazo”, comenta Coelho.


Segundo o professor, o IDH é composto de três variáveis: a educação, saúde e a economia. Cada uma delas pode ter oscilações de um ano para o outro e o alcance de resultados a partir de políticas públicas também é algo que demanda tempo. A educação considera os anos médios de estudo da população adulta e a expectativa de escolaridade dos jovens; a saúde é medida pela expectativa de vida ao nascer; e a renda, pela renda nacional bruta per capita. 


Quais aspectos estão ligados a essas melhorias


A melhora do IDH brasileiro está relacionada a um conjunto de transformações sociais e políticas acumuladas ao longo das últimas décadas. O professor destaca os efeitos das políticas públicas decorrentes da Constituição de 1988, que ampliaram direitos sociais e se traduziram em ações voltadas para educação, saúde e proteção social. Entre os fatores apontados estão a universalização da educação básica, o fortalecimento do financiamento da educação por meio do Fundef e do Fundeb, programas de transferência de renda, a atuação do Sistema Único de Saúde (SUS), a estabilização econômica após o Plano Real, a valorização do salário mínimo e a ampliação do acesso ao mercado de trabalho. Além disso, o professor menciona mudanças demográficas, como o aumento da expectativa de vida e o envelhecimento da população, como elementos que também contribuíram para o avanço dos indicadores de desenvolvimento humano. O professor destaca que, se não fosse pela pandemia, o Brasil poderia ter tido resultados ainda melhores no quesito saúde.


“Esse conjunto de políticas públicas e a própria dinamização da economia e da transformação social na relação entre Estado e sociedade foram contribuindo, no decorrer do tempo, com esse resultado do Índice de Desenvolvimento Humano, de tal forma que a média global hoje, considerando aproximadamente 200 países, é de 0,75, e o Brasil pela primeira vez alcança esse resultado de 0,805, ou seja, pela primeira vez um nível muito alto de desenvolvimento humano.” 


Renda segue sendo um desafio


O período de análise entre 2012 e 2026 foi um período complexo para a economia brasileira. Fernando Coelho explica que alguns especialistas enxergam 2015 em diante como um período similar à década perdida.


O avanço da renda foi limitado por um longo período de baixo crescimento econômico. O professor lembra que o Brasil enfrentou recessão em 2015 e 2016, crescimento fraco entre 2017 e 2019 e os impactos da pandemia, recuperando-se apenas nos últimos anos. Como a renda é medida pela renda bruta per capita, o desempenho da economia influencia diretamente esse indicador. Ele também destaca que o País ainda enfrenta a chamada “armadilha da renda média”, situação em que tem dificuldade de alcançar níveis mais elevados de desenvolvimento econômico, o que reforça a necessidade de manter um crescimento sustentável ao longo do tempo. 


Para o especialista, os desafios da renda vão além do crescimento econômico. As desigualdades regionais, históricas na economia brasileira, fazem com que os ganhos de desenvolvimento sejam distribuídos de forma desigual pelo território, limitando o avanço do indicador e reforçando diferenças entre Estados, municípios e regiões do País. 


O resultado histórico do IDH, porém, não elimina as disparidades que marcam o País. Segundo o professor, a média nacional esconde realidades muito distintas em um país de dimensões continentais. Cada região, Estado, cidades e grupos sociais têm uma realidade própria, o que torna o combate à desigualdade um passo essencial para que o desenvolvimento chegue de forma efetiva a toda a população. 


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