Começa esta semana a Copa do Mundo da FIFA, essa singular reunião de povos civilizados que, por um mês, suspendem as suas querelas mais graves para discutir uma questão infinitamente mais séria: quem fará mais gols.
Há quem diga que a humanidade progrediu. Não me atrevo a contradizê-la. Se outrora as nações se encontravam nos campos de batalha, hoje encontram-se nos gramados, e, em vez de canhões, disparam chutes. O sangue foi substituído pelo suor; os generais, pelos treinadores; e as fronteiras, por linhas de cal. Não é pouco.
O curioso deste Mundial é que o destino, esse velho dramaturgo de imaginação inesgotável, resolveu associar a campanha brasileira aos santos mais populares do calendário católico.
Logo no dia 13 de junho, festa de Santo Antônio de Lisboa, o Brasil enfrentará Marrocos. O santo português, celebrado pelos devotos como casamenteiro, será que o Brasil vai casar com a vitória?, e pelos estudantes como doutor da Igreja, verá do alto dos céus um confronto que talvez lhe desperte algumas reminiscências históricas. Afinal, portugueses e mouros já se encontraram outras vezes, embora em cenários menos esportivos e mais sangrentos. O santo, homem de paz, certamente preferirá o espetáculo moderno, em que as disputas terminam com apertos de mão e troca de camisas.
Depois, no dia 19, surge o Haiti, justamente na data dedicada a São Romualdo. Confesso que este santo não desfruta entre nós da mesma popularidade de seus colegas juninos. Se Santo Antônio encontra moças aflitas e São João encontra fogueiras, São Romualdo parece caminhar discretamente pelos corredores da memória religiosa brasileira. Talvez seja a ocasião de conquistar alguns admiradores, sobretudo se o Brasil vencer.
Por fim, chega o dia 24 de junho, festa de São João Batista. Eis uma data que o sertanejo conhece tão bem quanto conhece o ciclo das chuvas e das secas. É a noite das fogueiras, das quadrilhas, dos balões que já não sobem e das lembranças que nunca descem. Enquanto o Nordeste acende suas chamas festivas, o Brasil encerrará a fase de grupos diante da Escócia.
Não sei se São João se interessa por futebol. Os Evangelhos silenciam a respeito. Mas custa acreditar que um santo tão associado à alegria popular permanecesse indiferente ao espetáculo. Talvez, entre uma fogueira e outra, conceda alguma atenção ao jogo.
Há, portanto, uma coincidência simpática nesta Copa: o Brasil jogará acompanhado por santos. Não aqueles que entram em campo, apesar de alguns jogadores serem tratados como tais quando marcam gols decisivos. Refiro-me aos santos do calendário, figuras antigas que sobreviveram aos impérios, às revoluções, às máquinas a vapor, aos automóveis, à internet e agora observam, quem sabe com certo espanto, milhões de criaturas reunidas diante de telas luminosas para acompanhar vinte e dois homens correndo atrás de uma bola.
Se venceremos o Mundial, ignoro. Os santos costumam ajudar, mas raramente substituem o talento. Ainda assim, é agradável imaginar que, neste mês, a seleção brasileira não jogará sozinha. Terá ao seu lado Santo Antônio, São Romualdo e São João Batista, formando uma torcida celestial que, ao contrário das terrestres, jamais vaia no primeiro erro.



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