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quarta-feira, 24 de junho de 2026

Junho Violeta: unidades de saúde são fundamentais na identificação e prevenção da violência contra a pessoa idosa.

Acompanhamento contínuo nas unidades de saúde permite detectar sinais silenciosos de negligência e abuso; especialistas do CEJAM explicam os diferentes tipos de maus-tratos e o que fazer em cada caso



São Paulo, junho de 2026 - A violência contra a pessoa idosa nem sempre deixa marcas visíveis. Muitas vezes, ela se manifesta por meio da negligência, do isolamento, de ameaças, humilhações ou da exploração financeira, situações que podem permanecer ocultas por meses ou até anos. O alerta ganha destaque durante o Junho Violeta, campanha nacional de conscientização sobre a proteção  à pessoa idosa. 


Mais do que um problema social, a violência contra quem tem 60 anos ou mais é uma violação de direitos e pode trazer consequências importantes para a saúde física e emocional. O Estatuto da Pessoa Idosa garante proteção integral a essa população e prevê punições para casos de maus-tratos, abandono, negligência, violência psicológica, física, sexual, financeira ou patrimonial.    

   

Um dos principais desafios é justamente identificar essas situações. Diferentemente do que muitos imaginam, nem todo abuso resulta em lesões aparentes. Segundo o Dr. Raul Queiroz, médico de Família e Comunidade da UBS Jardim Valquíria, unidade da Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo (SMS-SP) e gerenciada pelo CEJAM – Centro de Estudos e Pesquisas "Dr. João Amorim", os familiares, vizinhos e profissionais de saúde devem estar atentos a mudanças que fogem ao habitual. 


"A violência contra a pessoa idosa frequentemente acontece de forma silenciosa. Por isso, é importante observar mudanças importantes no comportamento, no estado emocional ou nas condições de cuidado. Nem todo sinal indica agressão, mas merece um olhar atento e, quando necessário, uma avaliação mais cuidadosa", explica. 


Entre os sinais que podem indicar situações de vulnerabilidade estão o isolamento social repentino, a perda de peso sem causa aparente, o descuido com a higiene, o uso inadequado de medicamentos, o medo excessivo de determinadas pessoas e alterações significativas de humor ou comportamento. 


"Quem acompanha o idoso de perto consegue perceber mudanças que nem sempre são evidentes. Às vezes, a pessoa deixa de participar de atividades que gostava, passa a demonstrar medo ou insegurança, ou apresenta sinais de que não está recebendo os cuidados necessários. Esses aspectos precisam ser observados atenciosamente", afirma o especialista. 


Reconhecer as diferentes formas de abuso é essencial para que o próprio idoso tenha consciência de seus direitos e para que familiares e cuidadores saibam como agir diante de qualquer suspeita.      Confira os principais tipos e o que fazer em cada caso. 


Negligência 


É uma das modalidades mais denunciadas quando o assunto é a população idosa e ganhou ainda mais relevância nos últimos anos. Caracteriza-se pela ausência ou recusa de cuidados básicos, como alimentação, higiene, medicação e suporte à saúde.  


O que fazer: registrar a denúncia no Disque 100 - canal do governo federal disponível 24 horas por dia -, procurar o Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS) do município ou acionar a unidade de referência, garantindo que o idoso volte a receber os cuidados de que precisa.  


Violência psicológica 


Manifesta-se por constrangimentos, ameaças, humilhações, chantagens, manipulações, isolamento forçado ou limitações ao direito de ir e vir, atitudes que ferem a autoestima e a autodeterminação da pessoa idosa. Por deixar marcas invisíveis, exige um alerta redobrado. 


O que fazer: oferecer acolhimento, buscar suporte psicológico e procurar orientação profissional para interromper o ciclo de agressões e restabelecer o bem-estar emocional. 


Violência financeira 


Envolve a apropriação indevida de bens, recursos ou patrimônio, e pode ser praticada por pessoas de confiança, cuidadores ou até instituições. Forçar a assinatura de documentos sem explicar sua finalidade, induzir doações, alterar testamentos, obter procurações de forma irregular ou extrapolar os poderes concedidos são exemplos desse tipo de abuso.  


O que fazer: procurar orientação jurídica junto à Defensoria Pública ou ao Ministério Público e formalizar a denúncia para proteger o patrimônio e os direitos da vítima. 


Violência física 


Está entre os principais motivos de queixa e se expressa pelo uso da força que provoca dor, lesão ou sofrimento. Durante a pandemia, as denúncias de agressão e maus-tratos contra esse público cresceram 59% no Brasil. 


O que fazer: buscar atendimento médico imediato, registrar boletim de ocorrência e acionar os canais de proteção, como o Disque 100 e a Polícia Militar, pelo 190, em casos de emergências. 


Linha de cuidado da pessoa idosa 


Nas unidades gerenciadas pelo CEJAM, o enfrentamento da violência contra a pessoa idosa também passa pela Atenção Primária. Por meio da Linha de Cuidado da Pessoa Idosa, as equipes acompanham regularmente pacientes com 60 anos ou mais, criando vínculos que podem ajudar a identificar precocemente situações de negligência, abandono, isolamento social e outras formas de violação de direitos. 


Durante consultas, visitas domiciliares e atividades coletivas, os profissionais observam não apenas as condições de saúde, mas também aspectos emocionais, sociais e familiares que impactam a qualidade de vida da pessoa idosa. 

Esse cuidado pode ser apoiado por instrumentos como a Avaliação Multidimensional da Pessoa Idosa (AMPI), que é uma ferramenta utilizada por profissionais de saúde na Atenção Básica para avaliar o idoso de forma global, indo além do diagnóstico de doenças isoladas.       


Segundo Márcia Paschoaleto, gerente da UBS Jardim Maracá, unidade da SMS-SP e também gerenciada pelo CEJAM, conhecer a realidade em que o paciente vive é fundamental para compreender suas necessidades e garantir proteção quando há suspeita de violação de direitos. 


"Muitos casos não chegam ao serviço de saúde como uma denúncia formal. O que vemos são mudanças no comportamento, sinais de abandono dos cuidados, dificuldades que surgem de forma repentina ou um isolamento cada vez maior. Isso nos ajuda a perceber quando algo está diferente e a acionar os recursos adequados para proteger esse paciente. Quando existe vínculo com a equipe, conseguimos identificar esses alertas com mais rapidez e oferecer o suporte necessário", afirma. 


Além do atendimento clínico, a Linha de Cuidado prevê a articulação com a rede de proteção social, incluindo serviços de assistência social, Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) e órgãos responsáveis pela garantia de direitos. Essa integração permite que casos suspeitos de negligência, abandono ou outras formas de violência recebam orientação e encaminhamento adequados. 


"O profissional de saúde muitas vezes é uma das primeiras pessoas fora do ambiente familiar a perceber que algo não está bem. Por isso, acolher, escutar e saber como encaminhar cada situação é uma parte essencial da proteção à pessoa idosa", completa Márcia. 


Para os especialistas, combater esse tipo de violência exige atuação conjunta entre serviços de saúde, assistência social, familiares e comunidade. A atenção aos sinais, o fortalecimento das redes de apoio e a denúncia de situações suspeitas são medidas fundamentais para garantir segurança, dignidade e qualidade de vida durante o envelhecimento. 

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