Especialista alerta para sinais pouco conhecidos, impacto funcional e emocional da doença e da importância do tratamento multidisciplinar
Junho marca o mês de conscientização sobre o lipedema, doença crônica e progressiva que afeta principalmente mulheres e ainda é subdiagnosticado em todo o mundo. Caracterizado pelo acúmulo desproporcional de gordura, sobretudo em pernas, quadris e, em alguns casos, braços, costuma ser confundido com obesidade, retenção de líquido ou até falta de disciplina com alimentação e atividade física.
Segundo o cirurgião vascular e integrante da Comissão de Doenças Linfáticas da Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular – Regional São Paulo (SBACV-SP), Dr. Mauro Figueiredo Carvalho de Andrade, o desconhecimento sobre o tema ainda faz com que muitas mulheres convivam por anos com sintomas sem o tratamento adequado. “Em geral, são vários anos de avaliações médicas sem um diagnóstico correto. Não é infrequente as pacientes relatarem mais de dez anos de consultas”, afirma.
Embora o aspecto físico seja um dos sinais mais perceptíveis, o distúrbio vai muito além da aparência. A doença pode provocar dor, sensação constante de peso nas pernas, hematomas recorrentes e prejuízo funcional, impactando diretamente a qualidade de vida. “A dor ao toque costuma ser desproporcionalmente desagradável e decorre de um processo inflamatório nos tecidos. Já a sensação de peso é quase universal”, observa o médico.
As manchas roxas recorrentes também chamam atenção e costumam surgir após pequenos traumas que normalmente não justificariam os hematomas. O quadro, inclusive, pode comprometer mobilidade e capacidade funcional. Mesmo pacientes com IMC semelhante ao de mulheres obesas apresentam maior dificuldade para caminhar e realizar atividades do dia a dia. Em casos mais avançados, a limitação física pode favorecer perda muscular, dores articulares e desgaste dos joelhos.
Hormônios, genética e tratamento
Hormônios e genética têm influência importante no desenvolvimento da condição. Os sintomas costumam surgir ou piorar durante a puberdade, gravidez e menopausa. “Já foi identificada uma alteração na relação entre receptores específicos do estrógeno em pacientes com lipedema”, comenta Dr. Mauro.
Cerca de dois terços das pacientes relatam histórico semelhante em outras mulheres da família, embora ainda não exista um gene específico identificado. O especialista explica que a distribuição da gordura apresenta diferenças importantes em relação à obesidade tradicional. Enquanto na obesidade ela tende a se concentrar na região abdominal, nesse quadro o acúmulo ocorre predominantemente em quadris e membros inferiores. Apesar disso, o excesso de peso continua sendo um dos principais fatores de agravamento.
Segundo o médico, a perda de peso ajuda a reduzir o processo inflamatório, melhora a qualidade de vida e facilita a prática de atividades físicas, consideradas fundamentais para o controle da doença. Caminhada, fortalecimento muscular e exercícios na água estão entre as atividades mais indicadas para auxiliar no alívio dos sintomas e retardar sua progressão.
A alimentação também tem papel importante no controle do problema. Embora não exista até hoje, uma dieta considerada padrão-ouro, estratégias anti-inflamatórias associadas à redução calórica vêm sendo estudadas com maior atenção.
Outro ponto frequentemente cercado por dúvidas é a cirurgia. Dr. Mauro ressalta que o procedimento não deve ser encarado como solução isolada e que a abordagem conservadora deve sempre vir primeiro. “A cirurgia faz parte da conduta e deve ser indicada em casos selecionados. Ela não substitui os outros cuidados, que precisam continuar por longo período”, afirma.
Impacto emocional e importância da informação
Além dos impactos físicos, a doença também afeta a saúde emocional. Ansiedade, baixa autoestima, isolamento social e depressão são cada vez mais comuns entre mulheres que convivem com o problema. “O culto ao corpo perfeito nas mídias sociais faz com que muitas pacientes se sintam fora dos padrões vigentes. Isso frequentemente leva ao isolamento social e à vergonha de mostrar o próprio corpo”, avalia Dr. Mauro.
Apesar disso, o aumento das informações sobre o lipedema tem contribuído para que mais mulheres procurem avaliação especializada e iniciem os cuidados adequados. “As pacientes costumam ficar aliviadas quando entendem que o problema não é imaginário e que existe acompanhamento adequado”, comenta.
Dr. Mauro reforça que mulheres que apresentam dor nas pernas, sensação de peso, hematomas frequentes e desproporção corporal devem procurar avaliação especializada o quanto antes. “O diagnóstico precoce é fundamental para impedir a progressão da doença e preservar a qualidade de vida”, finaliza.



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