O hábito doméstico que preocupa especialistas em saúde pública e meio ambiente
| Reprodução internet |
Milhões de brasileiros descartam medicamentos no lixo comum, na pia ou até no vaso sanitário sem imaginar que parte dessas substâncias pode retornar ao meio ambiente e alcançar sistemas de abastecimento de água. O problema, pouco debatido fora das áreas técnicas, já preocupa especialistas em saúde pública e gestão ambiental.
O avanço do consumo de medicamentos de uso contínuo, hormônios, antibióticos e canetas injetáveis ampliou o volume de resíduos farmacêuticos gerados dentro das residências. Ao mesmo tempo, a falta de orientação sobre o descarte correto mantém um hábito que pode trazer consequências ambientais duradouras.
Segundo dados do Governo Federal, o Brasil possui atualmente mais de 4 mil pontos de coleta de medicamentos distribuídos em todos os estados e no Distrito Federal. Ainda assim, grande parte da população desconhece a existência desses locais ou nunca recebeu qualquer orientação sobre como descartar esses produtos.
Para a especialista em compliance regulatório e ambiental Renata Machado Lima Donnici, o problema começa justamente na falsa percepção de que pequenas quantidades não causam impacto. “Muitas pessoas acreditam que jogar um medicamento no lixo comum ou no vaso sanitário não traz consequências. Mas esses compostos podem atingir o esgoto, contaminar a água e afetar diretamente o meio ambiente e a saúde pública”, explica.
Com formação em Farmácia e atuação voltada à gestão sustentável de resíduos farmacêuticos, Renata afirma que os sistemas de tratamento nem sempre conseguem eliminar completamente determinadas substâncias químicas. “São compostos desenvolvidos para provocar reações biológicas. Quando chegam ao meio ambiente sem controle, parte deles continua ativa”, diz.
O crescimento no uso de medicamentos injetáveis para tratamentos metabólicos e diabetes também passou a chamar atenção de especialistas. Além do resíduo químico, o descarte envolve agulhas, mecanismos plásticos e materiais potencialmente contaminantes. “As pessoas ainda estão aprendendo a lidar com esse tipo de resíduo dentro de casa. É uma mudança recente na rotina de muitas famílias, mas que já exige atenção”, afirma.
Apesar da existência da logística reversa no Brasil, o descarte correto ainda esbarra na falta de informação. Farmácias e pontos autorizados recebem medicamentos vencidos ou em desuso, mas a procura permanece abaixo do necessário.
Para a especialista, o debate precisa avançar junto com a educação sanitária da população. “Hoje existe uma preocupação maior com reciclagem doméstica e sustentabilidade, mas os resíduos farmacêuticos ainda passam despercebidos. E eles exigem um cuidado específico”, conclui.


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