Ontem, a cidade de Patos resolveu celebrar o carnaval com apenas quatro meses de atraso — pontualidade que, convenhamos, já é virtude rara neste clima tropical. Não se espante o leitor, pois o precedente é ilustre: ainda no século XIX, o Rio de Janeiro chegou a cogitar transferir as suas festividades momescas para junho, empresa que não logrou êxito — a justificativa deveu-se ao calor.
Ora, no Nordeste as coisas se arranjam de outro modo já que o São João é em junho mesmo. Entre maio e agosto o clima afrouxa o rigor e convida à festa, e foi justamente por isso que as festas juninas firmaram raízes tão profundas nesta região — e, por contágio de alegria genuína, espalharam-se pelas demais. Há nisso uma lógica que o geógrafo compreende e o folião pratica sem precisar compreender.
Patos, porém, não se contentou com essa herança. Confundiu o carnaval com o São João e celebrou os dois ao mesmo tempo, produzindo aquela criatura híbrida e peculiar que a Bahia exportou ao mundo há uns cinquenta anos: a micareta. Veio com ela o seu inseparável símbolo, o trio elétrico — caminhão ruidoso e triunfante que percorre as ruas como alegoria viva do nosso subdesenvolvimento: grande, barulhento, e indo em círculos.
Muito se debate, nesta época do ano, sobre a autenticidade das festas juninas. Deve-se tocar o forró de zabumba e sanfona, ou entregar-se aos ritmos que a moda dita? A questão é antiga e a resposta, invariável: a moda vence sempre. Não por ser melhor — jamais se alegou tal coisa —, mas porque é da natureza das frivolidades impor-se com uma energia que a tradição, coisa séria e vagarosa, raramente consegue rivalizar. O São João, tal como o conhecemos nos livros e na memória dos avós, está encerrado. Doravante será feito conforme o gosto do momento, que é dizer, conforme o gosto de ninguém em particular e de todos em geral.
Mas aqui está a questão que de fato importa, e que a crônica não pode deixar de enunciar: para que serve o dinheiro público nessas festividades? A cultura de massa, quando irrigada pelo erário e temperada com as condições próprias do subdesenvolvimento, produziu no Brasil alguns espécimes musicais cuja originalidade consiste, precisamente, em não ter precedente em nenhuma civilização anterior. É uma distinção, à sua maneira.
O trio elétrico é o coroamento dessa trajetória. Nasceu da inventividade baiana, cresceu à custa do entusiasmo popular e chegou até nós como instituição inabalável — subsidiada, ruidosa e perfeitamente indiferente a qualquer discussão sobre o seu mérito. Talvez seja esse, afinal, o verdadeiro gênio nacional: a capacidade de transformar o improviso em tradição, e a tradição em despesa pública, antes que alguém pense em perguntar se vale a pena.
Patos folgou. O dinheiro correu. E a cidade, como tantas outras, aguardará o próximo ano para repetir o rito — desta vez, quem sabe, com apenas três meses de antecedência.



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