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sexta-feira, 19 de junho de 2026

Qualquer brasileiro agora entende mais de futebol que Ancelotti

Foto: Mauro Pimentel / AFP


O futebol tem, sim, valor sociológico. O perfil da torcida brasileira oscila entre extremos: da euforia absoluta ao pessimismo total, conforme observava Nelson Rodrigues. O brasileiro comum é uma criança birrenta. Após o empate do Brasil com o Marrocos na estreia da Copa do Mundo, com um time — se é que existe um time — que já se sabia frágil, ficamos todos amuados e corremos a encontrar culpados e a imaginar um salvador da pátria. Raphinha, Casemiro e Ancelotti foram amaldiçoados; Endrick, por sua vez, foi escolhido como o novo redentor nacional.


Agora, todo brasileiro entende muito mais sobre treinar uma equipe de futebol do que o italiano Carlo Ancelotti, que até a semana passada era considerado o melhor treinador do mundo. Bastou um empate para que décadas de conquistas, títulos continentais e experiências em gigantes europeus fossem apagadas pelo tribunal instantâneo das redes sociais e das mesas de bar.


O futebol brasileiro talvez seja o único ambiente em que um técnico multicampeão pode ser transformado em ignorante em questão de horas. O torcedor, armado apenas de paixão e memória afetiva, sente-se autorizado a escalar, substituir e reorganizar a seleção inteira entre o café da manhã e o almoço. Todos têm uma solução simples para um problema que já dura muitos anos.


E agora? Como suportar o presente sem poder esquecer o passado de Romário, Ronaldo, Zico e Pelé? Como assistir a uma seleção comum carregando a lembrança de equipes que encantavam o mundo? A comparação é inevitável e cruel. Enquanto outras seleções formam boas equipes com jogadores de pouco destaque individual, nós, mesmo tendo alguns atletas nos maiores clubes do planeta, não conseguimos construir um conjunto sólido. Não há time. Tanto que o gol do empate contra o Marrocos surgiu de uma individualidade de Vinícius Júnior, não de uma jogada coletiva que revelasse identidade ou padrão de jogo.


Talvez a vinda de Ancelotti tenha servido justamente para nos mostrar uma verdade incômoda: o problema não é o treinador. Há muito tempo buscamos um culpado conveniente — o técnico, a CBF, a geração de jogadores, a preparação física, a tática da moda — quando talvez o problema seja mais profundo. O futebol brasileiro perdeu algo que não se recompõe por decreto nem por troca de comando. Perdeu uma cultura, uma forma de jogar e, sobretudo, uma vantagem que o diferenciava dos demais.


Felizmente — ou infelizmente — não somos mais o país do futebol. O mundo aprendeu a jogar, investiu, organizou-se e nos alcançou. Algumas nações ultrapassaram-nos. Talvez nos reste aceitar essa nova realidade com menos drama e mais lucidez. Quem sabe seja hora de aprender matemática, ciência, tecnologia e tantas outras coisas que produzem riqueza e desenvolvimento, em vez de depositar nossas esperanças nacionais numa bola de couro.


O futebol continuará sendo uma das grandes paixões brasileiras. Continuaremos sofrendo, comemorando e discutindo escalações como se delas dependesse o destino da República. Mas talvez seja saudável compreender que a seleção já não é o centro do universo nem a medida da nossa grandeza. E, quem sabe, suportemos melhor as derrotas quando deixarmos de esperar milagres e passarmos a enxergar o jogo como ele realmente é: apenas um jogo, por mais importante que pareça aos domingos e em tempos de Copa do Mundo.

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