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quarta-feira, 3 de junho de 2026

Quem vigia quem? Os desafios do reconhecimento facial em uma sociedade cada vez mais monitorada

Laura Honda


Por Laura Honda*


Ao longo da minha trajetória na Polícia Militar, acompanhei algumas evoluções tecnológicas aplicadas à segurança pública. Poucas, porém, despertaram tanto interesse e geraram debates tão relevantes quanto o reconhecimento facial. O avanço da inteligência artificial e dos sistemas de videomonitoramento colocou essa ferramenta no centro das estratégias de segurança e controle de acesso em todo o mundo.


Atualmente, a tecnologia já está presente em aeroportos, estádios, terminais de transporte, condomínios e grandes eventos, permitindo a identificação rápida de indivíduos por meio da análise de características biométricas. Na segurança pública, essa transformação ocorre em ritmo acelerado. Com o aumento da capacidade de processamento de dados e a integração entre sistemas de monitoramento, o reconhecimento facial passou a ocupar um papel cada vez mais estratégico no apoio às ações policiais e na localização de pessoas procuradas pela Justiça.


Os resultados observados em diferentes estados brasileiros demonstram o potencial da tecnologia. Na Bahia, considerada uma das referências nacionais na utilização desse recurso, milhares de foragidos já foram identificados desde a implantação do sistema, em 2019. Em São Paulo, iniciativas como o Smart Sampa ampliaram significativamente a capacidade de monitoramento urbano por meio da integração entre câmeras inteligentes e bancos de dados oficiais, contribuindo para a localização de criminosos procurados e pessoas desaparecidas.


Na prática, o funcionamento do sistema combina videomonitoramento, inteligência artificial e análise humana. As imagens captadas pelas câmeras são comparadas com bases oficiais, como o Banco Nacional de Mandados de Prisão do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Quando há um elevado grau de compatibilidade, equipes policiais realizam a verificação presencial para confirmar a identidade antes da adoção de qualquer medida operacional ou judicial.


Na minha avaliação, um dos maiores benefícios dessa tecnologia está na capacidade de ampliar a percepção situacional das equipes de segurança em ambientes com grande circulação de pessoas. Em locais como manifestações, eventos públicos, terminais de transporte e estádios, o reconhecimento facial permite identificar situações de interesse policial de forma muito mais rápida do que seria possível apenas por meio da observação humana.


Além da repressão criminal, também observo um potencial importante na atuação preventiva. Afinal, quanto mais rapidamente conseguimos identificar indivíduos procurados ou situações de risco, maior é a capacidade de resposta. Entretanto, à medida que a tecnologia se expande, cresce também a necessidade de discutir seus limites e responsabilidades. O debate atual não se concentra apenas na eficiência dos sistemas, mas, principalmente, na forma como os dados biométricos são coletados, armazenados e utilizados.


Questões relacionadas à privacidade, à proteção de dados, à transparência dos algoritmos e à possibilidade de falsos positivos tornaram-se temas centrais em diversos países. No Brasil, essa discussão ganha relevância adicional diante da vigência da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e da crescente digitalização dos serviços públicos.


Entendo que a tecnologia deva atuar como uma ferramenta de apoio à tomada de decisão e não como substituta da análise humana. Por mais avançados que sejam os sistemas, a supervisão profissional continua sendo fundamental para garantir a correta interpretação das informações, evitando decisões equivocadas.


Por isso, acredito que o debate não deve ser sobre a adoção ou não do reconhecimento facial, mas sobre como utilizá-lo de forma responsável, transparente e alinhada aos princípios democráticos. O desafio das próximas décadas será construir uma segurança pública cada vez mais inteligente sem abrir mão das garantias individuais que sustentam o Estado de Direito.


A verdadeira inovação não estará apenas na capacidade de identificar pessoas em segundos, mas na habilidade de conciliar tecnologia, confiança pública e respeito aos direitos fundamentais. Esse equilíbrio será determinante para que o reconhecimento facial continue evoluindo como uma ferramenta legítima e eficaz a serviço da sociedade.



 *Laura Bastos Honda é cabo Polícia Militar do Estado de São Paulo


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