Por Paulo Feldmann, professor da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA) da USP
Em 2001, Jiang Zemin era o presidente da China quando, pela primeira vez, o país indicou em seu Plano Quinquenal a intenção de iniciar pesquisas para fabricar carros elétricos. O plano mencionava uma empresa localizada no interior da China, chamada BYD, cujo conhecimento na fabricação de baterias para telefones celulares poderia ser importante para a fabricação das baterias para carros elétricos. Lembremos que, nessa época, em lugar nenhum do mundo carros elétricos estavam sendo fabricados. Em 2025, a BYD fabricou quase cinco milhões de carros, dos quais 2,3 milhões foram 100% elétricos.
Esse caso mostra a importância de os países terem planos e, claro, se aplicarem para que os mesmos sejam executados. Quase todo o desenvolvimento da Coreia do Sul aconteceu por conta dos planos e das políticas industriais governamentais que previam a fabricação pioneira de telefones celulares, carros, televisores e inúmeros produtos eletrônicos. Graças a isso, em 40 anos, a Coreia passou de uma renda per capita abaixo da brasileira para o nível de um dos países mais desenvolvidos do mundo.
Tanto na China, quanto na Coreia, no Japão ou em Taiwan, os planos ou políticas industriais previam em detalhes tudo o que seria necessário para se alcançar o sucesso. Até mesmo a formação de bons engenheiros sempre esteve presente.
Mesmo os Estados Unidos, que até poucos anos pregavam que tudo poderia ser deixado nas mãos do “mercado”, se dobraram à necessidade desse tipo de planejamento. Logo no começo do governo Biden foi divulgada uma política industrial que se tornou lei e que previa nos mínimos detalhes o que seria prioritário em cada setor da economia, com incentivos ou linhas de crédito oferecidas pelo governo estadunidense e com estímulo à formação de profissionais para que as atividades pudessem acontecer. Trump mudou muita coisa de Biden, mas não isso.
Toda essa introdução foi necessária para colocar a questão central deste artigo, que é o fato de o Brasil não ter nem um plano para o futuro e muito menos uma estratégia de onde se quer chegar e com que instrumentos.
Temos diante de nós inúmeras oportunidades para o País se tornar uma grande potência: a biodiversidade da Floresta Amazônica, por exemplo, poderá nos colocar no rol dos grandes produtores de remédios, novos alimentos e novos materiais graças ao bom uso da biotecnologia. Mas, para que isso aconteça, precisamos dotar os estados do Norte de profissionais muito bem formados nessas áreas e com capacidade de fazer pesquisas. E precisamos de empresas brasileiras com incentivos e financiamentos para se motivarem a atuar nessas áreas. Mas, antes de tudo, precisamos de um plano e de uma estratégia.
O mesmo acontece em relação à transição energética. Hoje vários países, principalmente na Europa, ameaçam punir empresas que não utilizarem energia elétrica gerada por meio de fontes limpas. A União Europeia deixou claro, ainda em 2021 (antes da Guerra na Ucrânia), que empresas que emitem CO2 terão que instalar suas fábricas em países onde seja possível utilizar energia elétrica obtida de fontes limpas. Ora, o Brasil é dos raros países que apresentam uma matriz energética em que 75% da energia gerada provém dessas fontes – água, sol ou vento. Não seria o caso de haver uma política para atrair essas multinacionais que estão empenhadas em usar energia limpa?
Alguém sabe de alguma iniciativa neste sentido? Claro que não, pois nada está sendo feito para isso.
No mundo das empresas, sabemos que aquelas que não possuem uma boa estratégia inevitavelmente fracassam. Os países asiáticos acima mencionados demonstram que, para as nações, estratégias e planos bem elaborados são ainda mais importantes.
O Brasil não vai chegar a lugar nenhum enquanto não tiver uma estratégia bem elaborada.


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