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quinta-feira, 23 de julho de 2026

A conta da moto: acidentes internaram 1,25 milhão de brasileiros em uma década e custam bilhões ao SUS

Levantamento inédito do Grupo IAG Saúde mostra que o impacto assistencial no sistema público, por acidentes com motociclistas, é estimado em R$ 8,3 bilhões apenas entre 2021 e 2025

Crédito: Freepik/IA


Neste mês, a data de 27 de julho celebra o Dia Nacional dos Motociclistas, conforme a Lei 15.006/2024. A ocasião tem o propósito de aumentar a conscientização sobre os riscos enfrentados por motociclistas e reduzir o número de acidentes no trânsito. E as estatísticas reforçam essa necessidade.

 

Enquanto a frota de motocicletas bate recordes de vendas no Brasil, impulsionada pelo trabalho por aplicativos, os hospitais contabilizam a fatura em vidas e em reais. Uma análise conduzida pelo Grupo IAG Saúde, que reúne dados assistenciais da Plataforma DRG Brasil e registros nacionais do DataSUS, mostra que os acidentes envolvendo motociclistas se consolidaram como uma das grandes causas de internação por trauma no país — e que o problema não para de crescer.

 

Entre 2015 e 2025, o Sistema Único de Saúde registrou 1.247.801 internações de motociclistas acidentados, com 22.984 óbitos hospitalares. O dado mais preocupante está na curva de crescimento: as internações saltaram de 89.315 em 2015 para 153.301 em 2025, um aumento de cerca de 72% em uma década. Não é um problema que esteja sendo controlado; é um problema que se agrava ano a ano.

 

Uma geração de homens jovens no leito de hospital

 

O rosto dessas internações é jovem e masculino. Na Plataforma DRG Brasil, que detalha o perfil assistencial de 72.791 internações entre 2021 e 2025, 81,7% dos pacientes são homens, com idade média de 33,9 anos. É a população em plena idade produtiva, a mesma faixa etária que hoje concentra os trabalhadores de entrega por aplicativo, atividade que se tornou porta de entrada quase imediata no mercado de trabalho e um dos principais motores da expansão da frota.

 

Trauma pesado: um em cada dez vai para a UTI

 

Diferentemente de outras causas de internação, o acidente de moto raramente é leve. Os dados da Plataforma DRG Brasil mostram que 10,8% dos pacientes precisaram de terapia intensiva e 10,9% de ventilação mecânica — praticamente um em cada dez em cada um desses recursos de alta complexidade. A permanência média foi de 6,9 dias e o peso relativo médio, indicador de complexidade assistencial, ficou em 1,4978, bem acima do observado em internações clínicas de rotina.

 

As lesões são predominantemente ortopédicas. Cirurgias de membros e tratamento de fraturas responderam por 59,4% das internações, com destaque para cirurgias de membro inferior e úmero (21,1%) e para fraturas, entorses e deslocamentos (13,3%). São traumas que frequentemente exigem cirurgia, internação prolongada e longos períodos de reabilitação, com impacto que se estende muito além da alta hospitalar, sobre a capacidade de trabalho e a renda de quem depende da moto para viver.

 

A mortalidade hospitalar, embora inferior a 2% (1,8% na Plataforma DRG Brasil e 1,7% no SUS no período comparável), esconde um volume absoluto expressivo: as quase 23 mil mortes hospitalares registradas no SUS na década equivalem a uma média superior a cinco óbitos por dia — e essa contagem considera apenas quem morreu internado, sem incluir as mortes no local do acidente.

 

Bilhões que o sistema paga — e bilhões que a assistência custa

 

O peso econômico aparece em duas medidas complementares. Pelo que efetivamente pagou, o SUS remunerou essas internações em R$ 2,42 bilhões entre 2015 e 2025, com valor médio de R$ 1.940,47 por internação.

 

O custo assistencial real, porém, tende a ser bem maior do que o valor remunerado. Aplicando-se o custo médio observado na Plataforma DRG Brasil (R$ 12.658,45 por internação) ao volume de internações do SUS, estima-se que os acidentes de motociclistas tenham representado cerca de R$ 8,3 bilhões em custos assistenciais no sistema público entre 2021 e 2025. (Trata-se de estimativa: os valores do DataSUS correspondem à remuneração paga pelo SUS, enquanto os da Plataforma DRG Brasil representam o custo assistencial estimado. As bases retratam populações distintas e não são diretamente comparáveis; a projeção serve para dimensionar a ordem de grandeza do impacto, não para equiparar as fontes.)

 

Duas fontes, o mesmo alerta

 

O DataSUS oferece a escala nacional do problema, enquanto a Plataforma DRG Brasil, permite enxergar o detalhe clínico: uso de UTI, ventilação, complexidade e custo. Ainda assim, quando se olha o período comum (2021 a 2025), a mortalidade hospitalar é praticamente idêntica nas duas fontes — 1,7% no DataSUS e 1,8% na Plataforma DRG Brasil. Essa convergência, obtida por caminhos independentes, reforça a solidez do retrato: não é um viés de uma base isolada, mas um padrão que se repete quando o Brasil é observado por ângulos diferentes.

 

Um problema evitável

 

Diferentemente de muitas doenças, o trauma de trânsito é, em grande medida, prevenível. Especialistas em medicina de trânsito estimam que quem anda de moto tem risco de morte muito superior ao de ocupantes de carros, e em boa parte dos municípios brasileiros os acidentes de trânsito já matam mais do que armas de fogo. Os dados hospitalares dão a esse debate uma dimensão concreta: cada ponto na curva ascendente de internações é um jovem em uma UTI, uma cirurgia ortopédica, semanas de reabilitação e, com frequência, a perda da própria fonte de renda.

 

O desafio, mostram os números, é agir sobre as causas, com formação e condições de trabalho dos entregadores, fiscalização, infraestrutura viária e uso de equipamentos de proteção, antes que a curva continue subindo. Enquanto isso não acontece, é o sistema de saúde que recebe a conta, medida em leitos, em bilhões e, sobretudo, em vidas jovens interrompidas.

 

“Os acidentes de moto deixaram de ser eventos isolados para se tornarem uma epidemia silenciosa de trauma entre jovens. Nossos dados mostram um crescimento consistente das internações, com uso intensivo de UTI e alto custo assistencial. É um problema de saúde pública que exige resposta coordenada e que, ao contrário de muitas doenças, poderia ser evitado”, fala o presidente do Grupo IAG Saúde, Dr. Renato Couto.

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