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domingo, 12 de julho de 2026

O destino de um traidor da pátria: o caso María Corina Machado

AP


A história é pródiga em ensinar que nenhuma nação conquista a liberdade delegando a estrangeiros a tarefa de decidir o seu destino. Povos podem receber solidariedade internacional, apoio diplomático ou ajuda humanitária, mas a soberania jamais sobrevive quando o comando político passa para mãos externas. Quem entrega a independência em troca da promessa de libertação costuma descobrir, tarde demais, que apenas substituiu um senhor por outro.


É sob essa perspectiva que a reportagem publicada neste sábado (11) pelo The New York Times adquire especial relevância. Segundo o jornal, a Venezuela não teria se transformado em uma democracia após a queda de Nicolás Maduro, mas em um país cuja direção política passou a ser fortemente influenciada pelos Estados Unidos. Em vez da emancipação prometida e do regresso à democracia tornou-se numa colônia.


De acordo com a reportagem, Marco Rubio passou a coordenar, a partir de Washington, decisões relacionadas às finanças, aos recursos naturais e às principais diretrizes políticas venezuelanas, mantendo contato permanente com a presidente interina Delcy Rodríguez. O jornal relata ainda que, após a captura de Nicolás Maduro por forças norte-americanas no início de 2026, Donald Trump cogitou enviar Rubio para Caracas, mas preferiu mantê-lo em Washington, de onde continuaria supervisionando os rumos do novo governo. 


Independentemente do juízo que se faça sobre Maduro, o episódio evidencia uma realidade recorrente nas relações internacionais: as grandes potências atuam segundo seus próprios interesses, não segundo os interesses dos povos que afirmam ajudar. A política externa dos Estados Unidos, como a de qualquer potência, nunca foi guiada por altruísmo, mas pela defesa de objetivos estratégicos.


Foi justamente essa realidade que parte da oposição venezuelana parece ter ignorado. Convencida de que Washington conduziria a restauração democrática, apostou seu capital político na intervenção americana. O resultado, segundo essa leitura, foi amargo: a estrutura de poder chavista permaneceu, apenas reorganizada sob novos arranjos, enquanto a prometida democracia continuou distante.


Nesse contexto, María Corina Machado converteu-se no símbolo mais eloquente dessa aposta fracassada. Tornou-se a principal representante de uma estratégia baseada na confiança irrestrita no apoio norte-americano. Seus gestos públicos de aproximação com Donald Trump, inclusive a entrega de seu Prêmio Nobel da Paz, buscavam demonstrar alinhamento e fidelidade política. No entanto, quando seus interesses deixaram de coincidir com os da Casa Branca, descobriu que aliados circunstanciais são facilmente descartáveis.


A ironia tornou-se ainda mais cruel quando Machado foi impedida de regressar à Venezuela. Inicialmente, o fechamento do espaço aéreo e o bloqueio de voos determinados pelo governo de Delcy Rodríguez frustraram suas tentativas de retorno por meio do Panamá e de Curaçao. Posteriormente, segundo a reportagem, uma das operações acabou sendo cancelada pelo próprio governo norte-americano, que a considerou inconveniente para sua estratégia.


A política internacional raramente reserva espaço para sentimentalismos. Ela é movida pela razão de Estado, pela conveniência e pela correlação de forças. Quem acredita que uma potência estrangeira sacrificará seus próprios interesses em favor da liberdade de outro povo normalmente termina decepcionado.


A tragédia de María Corina Machado ultrapassa sua trajetória pessoal. Ela representa o drama de uma oposição que confundiu apoio externo com tutela política e acabou descobrindo que nenhuma nação conquista soberania por procuração. A independência pode até ser perdida em nome da liberdade; recuperá-la, porém, costuma ser muito mais difícil.


A velha lição permanece atual: a liberdade conquistada pelas mãos de outro dificilmente pertence ao povo que a recebe.

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