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quinta-feira, 30 de julho de 2026

Pesquisa internacional resgata concertos de sociedade musical criada por Maurice Ravel e que marcou época na Europa no início do século 20

Em colaboração com colegas da França, professora e pesquisadora do Instituto de Artes da Unesp organizou dossiê sobre entidade idealizada por musicista francês; documentação está disponível para consulta pública em plataforma web

Os nove fundadores da Sociedade Musical Independente, em foto de junho de 1910 (Wikicommons)


Idealizada no início do século 20 pelo francês Maurice Ravel (1875-1937) e um marco importante dos movimentos de renovação da música contemporânea, a Société Musicale Indépendante (Sociedade Musical Independente, ou SMI) ganhou o mais completo dossiê já feito sobre os seus 26 anos de existência. O trabalho é resultado de uma longa investigação liderada por pesquisadores franceses em parceria com a brasileira Danieli Verônica Longo Benedetti, pianista, professora e pesquisadora do Instituto de Artes da Unesp.


Do espetáculo inaugural em 20 de abril de 1910 até a apresentação derradeira em 3 de maio de 1935, a documentação dos 172 concertos organizados pelos “independentes” da França está disponível ao público em geral, contribuindo para o entendimento do processo histórico de renovação pelo qual passava a música erudita francesa e europeia no começo do século passado. O material está disponível na plataforma Dezède, rede de pesquisa de arquivamento digital sobre a produção de espetáculos na França, fundada por professores das universidades de Rouen Normandia, Toulouse Jean Jaurès e Paul-Valéry Montpellier.


O dossiê, de 421 páginas no total, começou a ser elaborado em março de 2022 e foi lançado oficialmente em 18 de junho passado. Os editores científicos são o pesquisador francês Manuel Cornejo, fundador e presidente da Associação Amigos de Maurice Ravel, e a docente da Unesp. O professor Yannick Simon, da Universidade Toulouse Jean Jaurés, também colaborou com o processo de construção do trabalho, agora apresentado como referência sobre a Sociedade Musical Independente. Até então, o livro “L’avant-garde musicale et ses sociétés à Paris de 1871 à 1939”, lançado em 1997 pelo pesquisador canadense Michel Duchesneau, era a principal fonte sobre a sociedade de concertos criada por Maurice Ravel e outros oito músicos.


Em 1910, um grupo de nove compositores assina o manifesto de fundação da SMI como reação à conduta pouco receptiva a novas tendências musicais por parte da Société Nationale de Musique (Sociedade Nacional de Música, ou SNM). O órgão, subvencionado pelo governo francês, foi criado sob um enraizado espírito nacionalista instalado na França nas décadas posteriores à Guerra Franco-Prussiana (1870-71). Nesse sentido, enquanto a sociedade nacional, que existu de 1871 até 1998, apoiava basicamente o mesmo grupo de compositores franceses, os “independentes” franceses se associavam para divulgar a música contemporânea sem distinção de escola ou nacionalidade.


O manifesto do comitê fundador da SMI é um dos documentos digitalizados para o dossiê na Dezède, junto com correspondências trocadas pelos membros do comitê da sociedade, a produção da imprensa especializada da época e os programas das salas de concerto, que estavam espalhados por arquivos da França, Áustria, Espanha, Estados Unidos e Itália.


A Sociedade Musical Independente abriu espaço a musicistas e um grande número de obras em um contexto histórico de “virada de página” do romantismo. A partir de 1921, a presença cada vez mais significativa de compositores estrangeiros agregados ao grupo levaria a criação de um comitê estrangeiro da SMI, com nomes como o húngaro Béla Bartók, o espanhol Manuel de Falla, o austríaco Arnold Schönberg, o italiano Alfredo Casella, o romeno George Enescu e o russo Igor Stravinsky, figura central do modernismo musical.


“A Sociedade Musical Independente era aberta e curiosa a toda novidade da música contemporânea, independentemente se a nacionalidade era francesa ou não. Por isso também a participação do (brasileiro Heitor) Villa-Lobos e de compositores de outras nacionalidades”, afirma a professora Danieli Longo Benedetti.


Algumas segmentações especiais integram o dossiê, como uma voltada às mulheres compositoras de obras exibidas nos concertos da Sociedade Musical Independente e outra destinada aos brasileiros que participaram de alguma forma dos concertos organizados pela sociedade, esta última realizada por influência da professora da Unesp. A pesquisa em torno dos brasileiros destacou oito pessoas: os compositores Heitor Villa-Lobos, Oswaldo Guerra e Luciano Gallet; e as intérpretes Elsie Houston, Lucília Villa-Lobos, Julieta de Menezes, Yecla de Menezes e Magdalena Tagliaferro.


“Foi uma pesquisa feita com fontes primárias e buscamos esgotar as possibilidades de levantamento sobre a programação em análise, valorizando todo tipo de pequena informação existente, colocando algumas notas sobre quem estava presente no dia do concerto e a forma como a imprensa, geral ou segmentada, noticiava (os espetáculos)”, afirma a professora, que estuda as sociedades musicais francesas há duas décadas.


Foi no contexto de afirmação dos 'independentes' franceses como sociedade de concertos que Maurice Ravel, um dos líderes do movimento, compôs o “Bolero”, obra feita em 1928 para a bailarina russa Ida Rubinstein e que se tornou uma das músicas eruditas ocidentais mais tocadas no século passado, além de um grande estudo de instrumentação de orquestra.


“Quando Ravel escreveu o Bolero, o tonalismo – quando uma composição é escrita em torno de uma tonalidade – já não era mais uma referência (próprio de movimentos artísticos e estéticos de séculos anteriores). No caso do Bolero, Ravel compôs um tema simples e o repetiu, explorando os diferentes timbres de uma orquestra: flauta, fagote, oboé…”, resume a professora Danieli Longo Benedetti.


Leia a reportagem completa no Jornal da Unesp.

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