Em colaboração com colegas da França, professora e pesquisadora do Instituto de Artes da Unesp organizou dossiê sobre entidade idealizada por musicista francês; documentação está disponível para consulta pública em plataforma web
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| Os nove fundadores da Sociedade Musical Independente, em foto de junho de 1910 (Wikicommons) |
Idealizada no início do século 20 pelo francês Maurice Ravel (1875-1937) e um marco importante dos movimentos de renovação da música contemporânea, a Société Musicale Indépendante (Sociedade Musical Independente, ou SMI) ganhou o mais completo dossiê já feito sobre os seus 26 anos de existência. O trabalho é resultado de uma longa investigação liderada por pesquisadores franceses em parceria com a brasileira Danieli Verônica Longo Benedetti, pianista, professora e pesquisadora do Instituto de Artes da Unesp.
Do espetáculo inaugural em 20 de abril de 1910 até a apresentação derradeira em 3 de maio de 1935, a documentação dos 172 concertos organizados pelos “independentes” da França está disponível ao público em geral, contribuindo para o entendimento do processo histórico de renovação pelo qual passava a música erudita francesa e europeia no começo do século passado. O material está disponível na plataforma Dezède, rede de pesquisa de arquivamento digital sobre a produção de espetáculos na França, fundada por professores das universidades de Rouen Normandia, Toulouse Jean Jaurès e Paul-Valéry Montpellier.
O dossiê, de 421 páginas no total, começou a ser elaborado em março de 2022 e foi lançado oficialmente em 18 de junho passado. Os editores científicos são o pesquisador francês Manuel Cornejo, fundador e presidente da Associação Amigos de Maurice Ravel, e a docente da Unesp. O professor Yannick Simon, da Universidade Toulouse Jean Jaurés, também colaborou com o processo de construção do trabalho, agora apresentado como referência sobre a Sociedade Musical Independente. Até então, o livro “L’avant-garde musicale et ses sociétés à Paris de 1871 à 1939”, lançado em 1997 pelo pesquisador canadense Michel Duchesneau, era a principal fonte sobre a sociedade de concertos criada por Maurice Ravel e outros oito músicos.
Em 1910, um grupo de nove compositores assina o manifesto de fundação da SMI como reação à conduta pouco receptiva a novas tendências musicais por parte da Société Nationale de Musique (Sociedade Nacional de Música, ou SNM). O órgão, subvencionado pelo governo francês, foi criado sob um enraizado espírito nacionalista instalado na França nas décadas posteriores à Guerra Franco-Prussiana (1870-71). Nesse sentido, enquanto a sociedade nacional, que existu de 1871 até 1998, apoiava basicamente o mesmo grupo de compositores franceses, os “independentes” franceses se associavam para divulgar a música contemporânea sem distinção de escola ou nacionalidade.
O manifesto do comitê fundador da SMI é um dos documentos digitalizados para o dossiê na Dezède, junto com correspondências trocadas pelos membros do comitê da sociedade, a produção da imprensa especializada da época e os programas das salas de concerto, que estavam espalhados por arquivos da França, Áustria, Espanha, Estados Unidos e Itália.
A Sociedade Musical Independente abriu espaço a musicistas e um grande número de obras em um contexto histórico de “virada de página” do romantismo. A partir de 1921, a presença cada vez mais significativa de compositores estrangeiros agregados ao grupo levaria a criação de um comitê estrangeiro da SMI, com nomes como o húngaro Béla Bartók, o espanhol Manuel de Falla, o austríaco Arnold Schönberg, o italiano Alfredo Casella, o romeno George Enescu e o russo Igor Stravinsky, figura central do modernismo musical.
“A Sociedade Musical Independente era aberta e curiosa a toda novidade da música contemporânea, independentemente se a nacionalidade era francesa ou não. Por isso também a participação do (brasileiro Heitor) Villa-Lobos e de compositores de outras nacionalidades”, afirma a professora Danieli Longo Benedetti.
Algumas segmentações especiais integram o dossiê, como uma voltada às mulheres compositoras de obras exibidas nos concertos da Sociedade Musical Independente e outra destinada aos brasileiros que participaram de alguma forma dos concertos organizados pela sociedade, esta última realizada por influência da professora da Unesp. A pesquisa em torno dos brasileiros destacou oito pessoas: os compositores Heitor Villa-Lobos, Oswaldo Guerra e Luciano Gallet; e as intérpretes Elsie Houston, Lucília Villa-Lobos, Julieta de Menezes, Yecla de Menezes e Magdalena Tagliaferro.
“Foi uma pesquisa feita com fontes primárias e buscamos esgotar as possibilidades de levantamento sobre a programação em análise, valorizando todo tipo de pequena informação existente, colocando algumas notas sobre quem estava presente no dia do concerto e a forma como a imprensa, geral ou segmentada, noticiava (os espetáculos)”, afirma a professora, que estuda as sociedades musicais francesas há duas décadas.
Foi no contexto de afirmação dos 'independentes' franceses como sociedade de concertos que Maurice Ravel, um dos líderes do movimento, compôs o “Bolero”, obra feita em 1928 para a bailarina russa Ida Rubinstein e que se tornou uma das músicas eruditas ocidentais mais tocadas no século passado, além de um grande estudo de instrumentação de orquestra.
“Quando Ravel escreveu o Bolero, o tonalismo – quando uma composição é escrita em torno de uma tonalidade – já não era mais uma referência (próprio de movimentos artísticos e estéticos de séculos anteriores). No caso do Bolero, Ravel compôs um tema simples e o repetiu, explorando os diferentes timbres de uma orquestra: flauta, fagote, oboé…”, resume a professora Danieli Longo Benedetti.



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