Revoltas estudantis na Índia e comparações com o Brasil - Blog A CRÍTICA

Últimas

Post Top Ad

terça-feira, 28 de julho de 2026

Revoltas estudantis na Índia e comparações com o Brasil

Reuters


Por Otaviano Helene, professor do Instituto de Física da USP


Dezenas de milhares de jovens saem às ruas da Índia contra fraudes no exame nacional de admissão para os cursos de medicina que afetou mais de dois milhões de candidatos. O que começou como uma legítima queixa contra o vazamento de provas e gabaritos rapidamente se transformou em uma revolta ampla contra o sistema educacional, o desemprego juvenil e o sufocamento econômico das famílias.


O cenário guarda paralelos com os desafios educacionais vividos no Brasil, já que ambos os países compartilham o drama de uma juventude que investe tempo e recursos na educação, mas esbarra em sistemas de ensino mercantilizados e mercados de trabalho altamente disfuncionais. As demandas indianas exigem transparência imediata nos exames, punição rigorosa a fraudadores e o congelamento de taxas abusivas em universidades públicas, somando-se à histórica e complexa discussão sobre as ações afirmativas.


Na Índia, as cotas são baseadas em castas e comunidades indígenas e originárias marginalizadas, gerando debates intensos entre estudantes de grupos historicamente discriminados, que lutam para manter o acesso, enquanto os não beneficiados protestam devido à concorrência extrema, agravada pela falta de vagas públicas. No Brasil, o sistema de cotas evoluiu para um modelo misto com critérios sociais e raciais que ampliou a inclusão, embora ambos os países ainda enfrentem a necessidade urgente de expansão da infraestrutura estatal para absorver a enorme demanda da população.


Ao analisar a estrutura educacional das duas nações em números arredondados, os contrastes desenham o tamanho do desafio. O Brasil apresenta uma rede de ensino superior visivelmente mais privatizada, com cerca de 80% das matrículas na rede particular, enquanto na Índia esse índice é de 56%. Outra diferença crucial reside na gratuidade: as universidades públicas brasileiras são totalmente gratuitas por lei, ao passo que as instituições públicas indianas são pagas e cobram taxas e anuidades dos estudantes. Essa cobrança pesa severamente sobre o orçamento familiar.


Enquanto o Brasil tem uma renda per capita pelo critério de paridade de poder de compra equivalente a US$ 24 mil, a Índia registra a metade, cerca de US$ 13 mil, fazendo com que as taxas públicas indianas comprometam até 15% dos rendimentos médios e empurrem as famílias para o endividamento. Surge então um paradoxo econômico fundamental: embora a distribuição de renda medida pelo Índice de Gini na Índia (25,5 em 2022 segundo o Banco Mundial) seja estatisticamente muito melhor do que a brasileira (52 em 2023 pela mesma fonte), o baixo patamar da renda média indiana torna a situação real de acesso e permanência na faculdade equivalentemente difícil. A desigualdade brasileira exclui pela concentração extrema de renda no topo, enquanto o cenário indiano nivela a maior parte da população em uma faixa que não consegue arcar com os custos do mercado privado.


Com uma taxa de matrícula de jovens no ensino superior de 43% no Brasil contra apenas 30% na Índia, o gargalo indiano deixa 7 em cada 10 jovens fora da faculdade, gerando uma competição desumana que mercantiliza o ensino através de cursinhos caros. Na atualidade, a quebra da promessa de que o diploma traria ascensão social alimenta o desemprego juvenil e a informalidade nos dois países, unindo as juventudes do Brasil e da Índia na mesma urgência por um futuro digno.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Post Bottom Ad

Pages