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sexta-feira, 31 de julho de 2026

Seminário Nacional pela Alfabetização encerra com chamado pela continuidade de políticas públicas para manter avanços no Brasil

Os debates reforçam o letramento matemático e a educação infantil como pilares cruciais para as próximas etapas da educação básica



A qualidade da pré-escola, o desenvolvimento do pensamento matemático desde a primeira infância e a continuidade das políticas públicas deram o tom do encerramento do Seminário Nacional pela Alfabetização, realizado nesta quinta-feira (30) no La Maison, em Fortaleza. Ao longo de dois dias, o encontro reuniu cerca de 500 gestores, pesquisadores e especialistas, além de 11 mil inscritos online, para discutir caminhos capazes de consolidar os avanços da alfabetização com equidade no Brasil.


A mesa "Perspectivas e desafios para qualificar a Pré-Escola" abriu a programação do segundo dia do evento reunindo Daniel Santos, fundador e coordenador do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Economia Social (LEPES/USP); Aglaízis Veras, coordenadora de Formação de Vargem Grande (MA); e Rodrigo Torres, secretário de Educação do Piauí, sob mediação de Karina Fasson, da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal. O debate destacou que a universalização do acesso à pré-escola deve caminhar ao lado do fortalecimento das práticas pedagógicas, uma vez que aprendizagem depende de propostas alinhadas às especificidades do desenvolvimento infantil.


Ao abordar os desafios da etapa, Aglaízis defendeu que a educação infantil precisa ocupar posição estratégica nas políticas públicas, deixando de ser compreendida apenas como uma fase preparatória para o ensino fundamental. "Enquanto nossos líderes não compreenderem que a educação infantil deve ser prioridade, a boa vontade, sozinha, não produzirá mudanças. É preciso transformar a intenção em ação concreta, destinando recursos e estabelecendo prioridades para essa etapa", disse.


Na mesma mesa, o secretário de Educação do Piauí, Rodrigo Torres, defendeu o acompanhamento contínuo do desenvolvimento das crianças por meio de instrumentos específicos para essa etapa da educação. "Nós precisamos avaliar a pré-escola. O que eu espero para cada faixa etária precisa estar muito claro para quem forma professores e para quem trabalha diretamente com essas crianças", disse.


A aprendizagem em matemática também esteve entre os temas centrais da programação, com os debatedores defendendo, na mesa "Letramento em Matemática", que o desenvolvimento do raciocínio lógico deve começar ainda na primeira infância, antes mesmo da alfabetização em leitura e escrita.


Professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e líder do Projeto Matemática Antirracista, Daniel Lima explicou que o senso numérico faz parte do desenvolvimento humano e precisa ser estimulado desde os primeiros anos de vida para evitar dificuldades futuras no aprendizado da matemática. "A desigualdade que observamos mais tarde não nasce com as crianças, ela é produzida ao longo do caminho. Se essas desigualdades são produzidas, elas também podem ser enfrentadas, e o nosso desafio é nutrir o potencial inato de cada estudante, criando oportunidades para que conectem suas experiências de vida às ideias matemáticas", afirmou.


À tarde, o seminário voltou-se para os desafios de manter políticas públicas educacionais em períodos de transição administrativa. Na mesa "Os governos mudam. E agora?", os participantes defenderam que programas voltados à alfabetização e à educação infantil precisam ser incorporados à estrutura das redes de ensino para reduzir os impactos das mudanças de governo. Izolda Cela, diretora de Programas Estaduais da Associação Bem Comum, afirmou que políticas educacionais se tornam mais resistentes quando são apropriadas pelas equipes das redes. "Quando uma política está enraizada, e esse enraizamento acontece por meio das pessoas, da confiança construída e da capacidade de implementação, ela ganha força", disse.


Na mesma discussão, o presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), Luiz Miguel Garcia, ressaltou que a continuidade das ações depende da construção de uma cultura institucional voltada ao direito à aprendizagem. "Quando a política deixa de ser vista como um projeto de governo e passa a ser entendida como um compromisso com as crianças, ela ganha outra dimensão. Independentemente das mudanças de gestão, permanece a convicção de que aquele caminho vale a pena", afirmou.


Promotor de Justiça do Ministério Público da Bahia, Adriano Marques defendeu uma atuação baseada na cooperação entre instituições e gestores públicos. Segundo ele, o enfrentamento dos desafios educacionais exige planejamento, monitoramento e trabalho conjunto. "O promotor do presente e do futuro é aquele que dá as mãos aos gestores para construir a solução em conjunto. Problemas estruturais e complexos não se resolvem mais com uma sentença de juiz ou uma recomendação, mas com organização e monitoramento", afirmou.


O encerramento reuniu diferentes perspectivas sobre os desafios da educação diante das transformações sociais e tecnológicas. O titular da Cátedra Sérgio Henrique Ferreira do Instituto de Estudos Avançados da USP de Ribeirão Preto, Mozart Neves Ramos, abordou os impactos das novas formas de colaboração digital sobre a escola, enquanto a liderança indígena e ambientalista Kaká Werá destacou a importância da ancestralidade para os processos de aprendizagem. "Aprender a ler é, antes de tudo, aprender a ver o mundo. E isso se aprende em comunidade", frisou.

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