A tarifa americana de 25% sobre produtos brasileiros entrou em vigor em 22 de julho de 2026. O movimento amplia um ciclo de pressão comercial que vem se desenhando desde 2025 e traz implicações relevantes para exportadores, importadores e para o mercado de câmbio
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| Foto: Vosmar Rosa/MPOR |
No dia 22 de julho de 2026, os Estados Unidos colocaram em prática uma nova rodada de tarifas sobre produtos brasileiros. A medida, de 25%, baseada na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, foi anunciada pelo USTR em junho após investigação que acusa o Brasil de práticas comerciais “irrazoáveis”, e entrou em vigor sem acordo diplomático consolidado.
Não é o primeiro capítulo. Em julho de 2025, Trump já havia anunciado uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, derrubada pela Suprema Corte americana meses depois. A nova ofensiva percorre caminho diferente: tem base jurídica mais robusta, foco econômico mais cirúrgico e, desta vez, preserva setores estratégicos para o abastecimento americano, como café, carne bovina e petróleo.
Para o comércio exterior brasileiro, o impacto é imediato. Para o mercado de câmbio, também. E para as empresas que exportam ou importam, o momento exige análise técnica, não apenas preocupação.
“O tarifaço americano precisa ser lido como uma variável financeira, não apenas como uma disputa diplomática. Seus efeitos sobre o câmbio, as margens e os contratos de comércio exterior são concretos e mensuráveis, independentemente do desfecho das negociações entre governos", declara Murilo Freymuller, Head Comercial Corporate do Banco Moneycorp.
Da tarifa de 50% à nova ofensiva de 25%
A cronologia importa. Em julho de 2025, Trump anunciou 50% sobre a maioria dos bens brasileiros, motivado pelo processo contra o ex-presidente Bolsonaro. A Suprema Corte americana derrubou a medida por excesso de poder executivo. Agora, o governo dos EUA reabriu a ofensiva pela Seção 301, instrumento com histórico consolidado e validado juridicamente nas disputas da guerra comercial com a China.
A nova tarifa mira a indústria de transformação brasileira. Segundo o vice-presidente Alckmin, 35,9% das exportações brasileiras estão diretamente expostas. Setores como têxtil, química, automotivo e metalmecânico estão na linha de frente. Para aço e alumínio, o quadro é mais grave: a soma das tarifas da Seção 232 com a nova Seção 301 pode levar a taxa efetiva a 50% sobre mais de US$ 2,5 bilhões emembarques anuais.
Em sentido oposto, ficam isentos o café (US$ 2 bilhões em exportações), a carne bovina (US$ 1,6 bilhão), o petróleo bruto, o suco de laranja e as aeronaves civis. As isenções refletem setores considerados estratégicos para o abastecimento americano.
Como a tarifa pressiona o dólar e as margens
A tarifa não é paga pelo país exportador. É paga pelo importador americano, que repassa o custo ao longo da cadeia. Na prática, isso reduz a competitividade do produto brasileiro no mercado americano, diminui os volumes exportados e, com isso, reduz o fluxo de dólares entrando no Brasil.
Menos divisas pelo canal comercial significa menos oferta de dólar no mercado interno, com pressão sobre o real. Para os importadores, um dólar mais caro encarece insumos e equipamentos. Para os exportadores que continuam vendendo fora, a oscilação cambial adiciona imprevisibilidade sobre margens já pressionadas pelas tarifas.
A CNI projeta retração de 0,5 a 0,6 ponto percentual no PIB de 2026, equivalente a cerca de R$ 76 bilhões. Não é um número abstrato: ele se distribui por empresas, empregos e decisões de investimento que já começam a ser revisadas.
Diversificação funciona, mas tem prazo
O Brasil não chegou ao tarifaço de 2026 sem aprendizado. Após as primeiras ameaças de 2025, governo e setor privado aceleraram a diversificação da pauta exportadora. A China absorveu US$ 6,47 bilhões em produtos brasileiros em janeiro de 2026, alta de 17,35% na comparação anual. Índia, União Europeia e mercados africanos também ganharam espaço.
No consolidado de junho, as exportações brasileiras totalizaram US$ 36,3 bilhões, com superávit de US$ 9,8 bilhões. Os números mostram resiliência. Mas a queda de 25,54% nas exportações para os EUA em janeiro, que recuaram para US$ 2,40 bilhões, evidencia que a substituição não é imediata nem completa.
O acordo Mercosul-União Europeia, finalmente assinado, aponta para outro vetor de diversificação de longo prazo. Mas as salvaguardas aprovadas pelos europeus para produtos agrícolas sensíveis devem limitar parte do ganho esperado na abertura inicial.
“O movimento de diversificação da pauta exportadora brasileira já produz resultados visíveis nos dados. O desafio está no ritmo: a substituição de mercados é um processo gradual, e o intervalo entre a perda de volume com os EUA e a consolidação de novos destinos cria uma janela de exposição que merece atenção no planejamento financeiro das empresas", complementa Freymuller.
Uma disputa com múltiplas dimensões
O tarifaço de Trump contra o Brasil tem dimensões que extrapolam o econômico. A justificativa oficial do USTR mistura disputas comerciais legítimas, como questões do etanol e do Pix, com pressões políticas. Isso torna o desfecho menos previsível do que em disputas puramente comerciais.
Como alertou Alckmin, a negociação não terminou quando a tarifa entrou em vigor: ela começa agora. O governo brasileiro segue negociando isenções e prazos. O mercado aguarda. E as empresas, independentemente do desfecho diplomático, precisam operar com as regras atuais, não com as que esperam que existam no futuro.
Em um ambiente de maior imprevisibilidade comercial, a gestão cambial ganha relevância crescente no planejamento financeiro de empresas que operam no comércio exterior.



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