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segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Apostas online acendem alerta para impactos na vida de jovens e exigem atenção especial à proteção de meninas e mulheres

Crescimento das bets amplia exposição de adolescentes a riscos financeiros, emocionais e sociais

 

Foto: Bruno Peres/Agência Brasil

O avanço das plataformas de apostas online no Brasil, popularmente conhecidas como bets, deixou de ser apenas uma questão relacionada ao entretenimento e passou a representar um desafio de saúde pública e de proteção de crianças, adolescentes e jovens. Embora a legislação brasileira proíba apostas por menores de 18 anos, adolescentes continuam tendo contato e acesso a essas plataformas, muitas vezes por meio do celular e das redes sociais. O cenário exige atenção não apenas do poder público e das empresas do setor, mas também de famílias, escolas, plataformas digitais, influenciadores, clubes esportivos e de toda a sociedade.

 

Um dos retratos mais recentes do problema vem do III Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad III), realizado pela Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). O estudo, realizado entre 2023 e 2024, mostra que cerca de 10,9 milhões de pessoas de 14 anos ou mais, o equivalente a 6,8% da população, apresentam comportamento de apostas considerado de risco, com possibilidade de gerar problemas emocionais, familiares, financeiros ou relacionados ao trabalho. Entre elas, cerca de 1,4 milhão apresentam um padrão compatível com transtorno do jogo.


O dado se torna ainda mais preocupante quando se observam os adolescentes. Segundo o levantamento, 4% dos apostadores identificados eram adolescentes e 84,1% dos jovens que apostavam utilizavam plataformas online. Apesar de representarem uma parcela menor do universo de apostadores, eles apresentaram uma proporção de risco de desenvolvimento de transtorno do jogo de 55,4%, contra 37,7% entre os adultos. O estudo também aponta que adolescentes podem apresentar risco de duas a quatro vezes maior do que adultos de desenvolver problemas relacionados a jogos de azar.

 

Embora os homens ainda sejam maioria entre os apostadores, 66,5% dos jogadores, contra 33,5% de mulheres, o crescimento da participação feminina merece ser acompanhado com atenção. O recorte de gênero é fundamental porque os impactos de comportamentos de risco podem se combinar a desigualdades econômicas e sociais já existentes e afetar de maneira diferente a vida de mulheres e homens.

 

Segundo estudo "Mulheres & Bets", divulgado pelo Estudio Clarice recentemente, metade das brasileiras já sentem o impacto das bets em suas vidas, sendo que 42% apostam ou já apostaram, e dessas as que tem filhos jogam 1,6 mais vezes do que as que não tem, apontando que a questão da aposta surge como possibilidade de renda complementar e não como forma de lazer.

 

De acordo com Isabela Pronsate, especialista em empoderamento econômico da Plan Brasil, no caso das meninas e adolescentes, a preocupação começa antes mesmo do comportamento de aposta se consolidar.


“A exposição constante a conteúdos sobre bets nas redes sociais, transmissões esportivas, publicidade e conteúdos produzidos por influenciadores pode contribuir para normalizar a ideia de que apostar faz parte do cotidiano, do lazer ou até de uma estratégia para conquistar independência financeira. O problema é ainda mais sensível quando essa comunicação chega a crianças e adolescentes por canais que fazem parte de sua rotina digital.”

 

Um estudo divulgado pelo Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict), a partir de pesquisa realizada em 2024, identificou estratégias de marketing enganosas e conteúdos relacionados a apostas direcionados a públicos em situação de vulnerabilidade social e econômica. O relatório encontrou, inclusive, canais no YouTube voltados ao público infantil que promoviam atividades de apostas ilegais e apresentavam transmissões capazes de alcançar milhares de espectadores simultaneamente, entre eles crianças e adolescentes.

 

Em julho de 2026, o Ministério da Fazenda reforçou as regras de publicidade do setor. Entre as medidas anunciadas está a determinação de que qualquer publicidade de apostas direcionada a menores de 18 anos seja considerada abusiva, além da proibição do uso de imagens, personagens, linguagem ou outros elementos especialmente capazes de atrair esse público. Também foram estabelecidas restrições à publicidade em ambientes frequentados predominantemente por menores, como escolas e locais de atendimento infantil.

 

Na prática, porém, a proteção depende de uma combinação entre regulação, fiscalização e educação. Famílias e responsáveis precisam conversar com crianças e adolescentes sobre como funcionam as apostas, deixando claro que elas não são uma forma segura de ganhar dinheiro e que plataformas de apostas não devem ser utilizadas por menores de idade. É importante também acompanhar aplicativos, meios de pagamento e ambientes digitais utilizados pelos filhos, além de observar mudanças de comportamento, como preocupação excessiva com resultados esportivos, tentativa de esconder atividades online ou interesse recorrente em dinheiro e apostas.

 

Para meninas e mulheres, ampliar o debate também significa evitar que a questão seja tratada apenas como escolha individual. É necessário compreender como fatores como desigualdade econômica, pressão social, publicidade e busca por autonomia financeira podem influenciar a relação com o dinheiro e com as apostas. “Quanto mais cedo houver informação qualificada, maior a possibilidade de evitar que um comportamento apresentado como diversão se transforme em um problema com consequências para a saúde mental, os relacionamentos, a educação e a vida financeira", reforça a especialista.

 

É nesse cenário que a Plan Brasil, ONG que trabalha para romper ciclos de violências contra meninas, atua. A organização conta com um histórico de iniciativas voltadas ao desenvolvimento de habilidades socioemocionais, finanças e empreendedorismo social. Entre elas está o Projeto Geração, implementado entre 2014 e 2022 em Codó, São Luís, Teresina, Recife e agora, em 2026, em São Paulo, com foco em crianças, adolescentes e jovens de 12 a 14 anos. A iniciativa trabalha temas como consumo consciente, orçamento doméstico, formas de poupar, tomada de decisão e projetos de futuro, já tendo impactado mais de 3 mil participantes de forma direta e 7 mil indiretamente nas edições anteriores.


O desafio, portanto, não é apenas impedir que menores de idade façam apostas. É construir uma cultura de proteção capaz de evitar que crianças e adolescentes sejam socializados em um ambiente no qual apostar seja apresentado como algo normal, divertido e potencialmente lucrativo, bem como evitar que esse tipo ferramenta seja visto como uma oportunidade de complementar a renda tanto para adolescentes quanto adultos. Diante da velocidade com que as bets se disseminaram no ambiente digital, proteger as novas gerações exige atuação coordenada entre Estado, empresas, escolas, famílias e sociedade.

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