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quinta-feira, 6 de agosto de 2026

FOMO: a síndrome que impede uma geração de viver o presente

Estudos recentes associam o Fear of Missing Out (FoMO) à ansiedade e indicam que o fenômeno mantém a mente projetada para o futuro, enquanto o corpo permanece no agora 



O avanço dos transtornos mentais deixou de ser uma preocupação restrita à área da saúde e passou a ocupar espaço nas discussões sobre produtividade, qualidade de vida e bem-estar emocional. Em 2025, o Brasil registrou cerca de 546 mil afastamentos do trabalho por ansiedade, depressão e outros transtornos mentais, o maior número da última década, segundo levantamento da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT), com base em dados oficiais do INSS. 


Ao mesmo tempo, pesquisas internacionais passaram a investigar um comportamento cada vez mais frequente: o Fear of Missing Out (FOMO), que em português significa algo como "medo de ficar de fora", associado ao aumento da ansiedade, da depressão e do sofrimento psicológico.


Elainne Ourives, psicanalista, escritora e especialista em reprogramação mental, afirma que as evidências científicas reforçam um comportamento que observa há anos na prática clínica. Segundo a especialista, o FOMO representa um funcionamento psíquico em que a mente abandona continuamente o presente para viver na expectativa do que ainda pode acontecer. "Quando a felicidade passa a existir apenas na próxima conquista, na próxima informação ou na próxima oportunidade, nenhuma experiência consegue produzir sensação de plenitude. A pessoa vive sempre esperando a vida começar."


Um dos estudos mais recentes foi publicado em 2026 na revista científica PsyCh Journal, da Wiley. A pesquisa analisou 3.108 universitários e identificou que a dimensão denominada Information Fear of Missing Out, caracterizada pela sensação constante de estar perdendo informações relevantes, apresentou a associação mais significativa com sintomas de ansiedade e depressão. Os pesquisadores observaram que o sofrimento psicológico está menos relacionado ao medo de perder eventos e mais ao receio de ficar para trás em relação às informações.


Para a psicanalista, esse resultado reforça que o problema não está apenas na quantidade de conteúdo disponível, mas no estado permanente de antecipação. "Quando a pessoa acredita que precisa acompanhar tudo para não perder oportunidades, ela deixa de experimentar o presente. A atenção passa a viver no futuro e o cérebro perde a referência de segurança no agora."


Outro estudo, publicado em 2026 no International Journal of Mental Health and Addiction, encontrou associação consistente entre diferentes dimensões do Fear of Missing Out, ansiedade, depressão e sofrimento psicológico, reforçando que o fenômeno tem despertado interesse crescente da comunidade científica.


Na avaliação da especialista, atribuir o FOMO exclusivamente às redes sociais reduz um fenômeno psicológico muito mais complexo. Segundo ela, a tecnologia amplia um padrão mental que já existe, mas não é sua origem. "O problema começa quando o cérebro aprende que aquilo que falta parece sempre mais importante do que aquilo que já existe. Enquanto a mente acreditar que a realização está sempre no próximo momento, nenhuma conquista será suficiente."


Essa lógica também ajuda a explicar por que muitas pessoas permanecem frustradas mesmo depois de alcançar objetivos profissionais, financeiros ou pessoais. A psicologia descreve esse comportamento por meio da adaptação hedônica, mecanismo pelo qual conquistas rapidamente deixam de produzir satisfação e dão lugar a novas expectativas. Para Elainne, quando esse processo se combina ao Fear of Missing Out, instala-se um ciclo contínuo de ansiedade, autocobrança e sensação de insuficiência. "A realização deixa de ser um ponto de chegada e passa a ser apenas uma nova linha de partida."


Entre os sinais mais frequentes deste padrão estão a dificuldade de descansar sem culpa, a necessidade constante de verificar informações, a sensação de atraso em relação à vida de outras pessoas, a incapacidade de aproveitar conquistas e a ansiedade diante da possibilidade de perder oportunidades. Para a psicanalista, reconhecer esse funcionamento é o primeiro passo para interromper o ciclo. "O contrário do FoMO não é viver desconectado. É recuperar a capacidade de estar inteiro no presente. Enquanto a mente acreditar que a vida verdadeira sempre começa depois da próxima conquista, nenhuma experiência será suficiente."

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