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sábado, 22 de agosto de 2026

Política não significa correr no meio da rua



Quem nunca ouviu, por estas paragens, um eleitor incrédulo a dizer: “Eu só quero que essa política já passe!”? Essa frase, sempre repetida com a resignação de quem espera o fim de uma moléstia, é terrível, posto que a política não pode passar, já que faz parte do dia a dia do cidadão e não tem época para acontecer. Por outro lado, sabemos que as pessoas que assim falam estão se referindo à campanha eleitoral, e aí, até que elas têm razão, pois as campanhas, no Brasil, são frequentemente escandalosas.


Chegou a campanha eleitoral e políticos e eleitores de “terceiro mundo” tomam algum tipo de “frivião” — palavra que, não sei se existe nos dicionários, mas existe certamente na vida — e se põem a correr no meio das ruas das cidades. E tome gritaria, e tome música, e tome aceleradas em motos de escapamento arrombado. Parece que, de repente, a política deixa de ser uma atividade da razão para transformar-se numa espécie de carnaval motorizado. 


Agora, cadê o debate? Convoque-se uma manifestação de rua pelo fim do auxílio-alimentação dos vereadores e ninguém comparecerá.


Os discursos, cada vez mais parcos, dos candidatos são sempre estimuladores de delírios; não são explicativos. Prometem o futuro, mas raramente explicam o caminho para chegar até ele. Falam de tudo, menos daquilo que realmente importa: como pretendem governar, quanto custará o que prometem e de onde virá o dinheiro.


Os eleitores são quase sempre “elétricos”. É um tipo de eleitor folião: quer se agarrar com os candidatos, tirar fotografia, dançar, gritar o nome do político e participar da festa. Não faz perguntas severas. E, quando faz, muitas vezes é para xingar. A política, que deveria ser o lugar da palavra, transforma-se, assim, no lugar do barulho. Manifestação de rua é política, micareta de candidato não é política.


Não existe política no Brasil.


Ou, pelo menos, existe muito pouco daquilo que se poderia chamar propriamente de política.


Hannah Arendt dizia que a política começa quando acabam as necessidades básicas. A frase, tão elegante quanto cruel, serve para lembrar que a política deveria nascer justamente quando o homem já não está ocupado exclusivamente em sobreviver. O problema é que, no Brasil, uma parcela enorme da população ainda vive presa às necessidades mais elementares.


Sabemos que, historicamente, o voto no Brasil tem sido comprado por cestas básicas, dentaduras, empregos, favores e toda sorte de pequenas mercadorias eleitorais. O coronel de antigamente conhecia muito bem a pobreza do eleitor e dela fazia instrumento de poder. Mudaram os automóveis, os telefones, as roupas e os métodos de propaganda; o mecanismo, porém, conserva uma certa familiaridade.


Hoje em dia, o voto é manipulado pelas emendas parlamentares.


A diferença é que a dentadura do antigo coronel cabia numa mão, enquanto a emenda parlamentar pode caber em milhões de reais. O favor deixou de ser doméstico e ganhou rubrica orçamentária. Já não se entrega apenas uma cesta básica à porta do eleitor; entrega-se uma obra, uma ambulância, um recurso, um benefício, e, de preferência, não se esquece de informar quem foi o benfeitor.


É uma forma mais sofisticada da velha política, embora conserve a mesma essência: transformar aquilo que é direito do cidadão em favor do político.


E talvez seja por isso que, a cada eleição, tanta gente deseje apenas que “essa política passe”. Não querem que passe a política, propriamente dita; querem que passe o espetáculo. Querem que cessem os carros de som, as motos barulhentas, as bandeiras, os gritos, as passeatas e as promessas que desaparecerão tão depressa quanto apareceram.


Mas a política não passa.


Ela fica.


Fica na escola que não funciona, no posto de saúde sem médico, na estrada esburacada, no imposto que aumenta, na água que falta, no dinheiro público que desaparece e, sobretudo, nas decisões tomadas por aqueles que foram eleitos.


Correr no meio da rua pode ser muito animado, mas não é política. Gritar o nome do candidato não é política. Agarrar-se ao político e dançar com ele também não. Política é discutir o destino comum, cobrar explicações, conhecer as propostas, examinar os gastos, desconfiar das promessas e, sobretudo, compreender que o político não está fazendo um favor quando utiliza o dinheiro público. Usem o portal da transparência!


Talvez aí esteja a nossa maior dificuldade: confundimos política com campanha eleitoral.


A campanha acaba. A política continua.


E esta última, ao contrário da primeira, não tem carro de som, não distribui bandeiras e não costuma passar correndo no meio da rua. Ela entra silenciosamente pela porta de casa e fica sentada conosco à mesa, pagando a conta.

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