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domingo, 20 de setembro de 2026

A economia progressista está dando resultados

Alberto Paredes/Europa Press via Getty Images


Dario Durigan e Carlos Cuerpo


Poucas ideias “zumbi” voltam com tanta persistência como a alegação de que os governos de direita são bons para a economia, enquanto os progressistas a administram mal. Contudo, esta crença reflete uma noção de economia que ignora a sustentabilidade do crescimento e o histórico real dos conservadores.


De fato, um país após o outro, a experiência neoliberal das últimas quatro décadas aumentou os déficits públicos, agravou a desigualdade, provocou crises financeiras recorrentes e deixou as economias mais frágeis. E, diversas vezes, foram os governos de esquerda que tiveram de reparar os danos.


No entanto, alguns setores da esquerda entregaram as bandeiras do crescimento, da sustentabilidade orçamentária e da estabilidade de preços aos conservadores, apesar de as evidências mostrarem que os progressistas têm defendido melhor esses objetivos. Tais erros desnecessários minaram a credibilidade da esquerda junto dos cidadãos que só queriam trabalhar, abrir um negócio e melhorar suas vidas.


Nossos dois governos adotaram a abordagem oposta. No Brasil, na sequência da derrota de um governo de direita, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou ao caminho da responsabilidade orçamentária e da justiça social que o governo anterior tinha abandonado.


Após aumentar a transparência, ampliar a política social e revogar benefícios fiscais que beneficiavam de modo desproporcional os grandes grupos empresariais, os resultados falam por si. O desemprego está num mínimo histórico, os rendimentos das famílias estão aumentando e milhões de pessoas estão saindo da pobreza.


Da mesma forma, na Espanha, o governo do primeiro-ministro Pedro Sánchez assegurou uma das taxas de crescimento mais elevadas entre as principais economias avançadas durante três anos consecutivos, ao mesmo tempo que reduziu o déficit para seu nível mais baixo em quase duas décadas. O emprego está em níveis recorde, sendo a Espanha responsável por cinco de cada dez novos postos de trabalho criados na zona do euro, e as reformas estruturais estão melhorando a qualidade do emprego, a produtividade e a inovação.


A lição é a mesma em ambos os casos. Com a combinação certa de políticas ousadas e ambiciosas, responsabilidade orçamentária, crescimento e programas de desenvolvimento social não se contradizem; reforçam-se mutuamente. Este é o caminho alternativo de que o mundo precisa, à medida que os tomadores de decisões políticas põem cada vez mais os interesses estreitos do mercado e do setor financeiro à frente do bem comum.


O Conselho Global sobre a Nova Economia para o Século 21, um fórum de economistas de renome que trabalham para promover este modelo de economia progressista, foi criado para conceber e promover políticas sólidas para um mundo em transformação. Sediado inicialmente pela Espanha, o Conselho fará sua primeira reunião presencial em outubro – encontro que promete ser um passo fundamental para deixar para trás a economia ortodoxa que falhou com a maioria da população mundial.


Esse fracasso não pode continuar. As três grandes transições hoje em andamento – demográfica, ecológica e digital – exigem economias mais justas, mais produtivas, mais resilientes e mais soberanas. A transição demográfica, por exemplo, está pondo pressão nas proteções sociais em ambos os lados do Atlântico. A Espanha tem uma das populações mais envelhecidas do mundo, e o Brasil começa a ver o fim do dividendo demográfico que impulsionou seu desenvolvimento.


A resposta da direita a este desafio se resume a cortar benefícios, transferindo o custo para aqueles que menos podem suportá-lo. Nossa resposta consiste em aumentar a produtividade e construir sistemas fiscais mais justos e progressivos. O Brasil acaba de aprovar uma reforma do imposto de renda que isenta 15 milhões de trabalhadores de rendimentos baixos e médios, ao mesmo tempo que impõe uma contribuição efetiva mínima aos que têm rendimentos muito elevados. Da mesma forma, a Espanha tributou os lucros extraordinários das empresas do setor energético e dos bancos para financiar sua resposta ao surto inflacionário pós-invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022. Foi também pioneira na introdução de um imposto sobre grandes fortunas.


Com a transição ecológica emergindo como a base do desenvolvimento do século 21, o Brasil tem ativos estratégicos inigualáveis, que incluem a maior floresta tropical do mundo, suas maiores reservas de água doce e um forte mix de energia renovável. O governo Lula fez da proteção da Amazônia um pilar da política externa brasileira, não para renunciar ao desenvolvimento, mas para garantir que esse desenvolvimento seja sustentável.


A Espanha, por sua vez, é liderança mundial em energia limpa. As energias renováveis geram mais de metade da sua eletricidade, e o país ocupa o segundo lugar no mundo em termos de novos investimentos no setor.Sua dependência reduzida dos hidrocarbonetos já protegeu as famílias do impacto da guerra no Irã e reduziu os custos da eletricidade para a indústria.


Por fim, a transição digital vai moldar cada vez mais as condições de vida das futuras gerações. Porém, na situação atual, um punhado de empresas controla a infraestrutura tecnológica sobre a qual operam nossas economias e democracias. Como alertou o Papa Leão 14, esta concentração traz riscos sérios de desumanização, porque as empresas tecnológicas otimizam os lucros para os acionistas em vez de o fazerem para a coesão social ou a integridade democrática.


É por isso que o Brasil está combinando a regulamentação das plataformas com o apoio a centros de dados e um quadro para a IA baseado no risco, e é por isso que a Espanha propôs proibir o acesso de menores de 16 anos às redes sociais. Ambos exigem maior responsabilidade por parte das grandes plataformas e defendem uma IA que respeite a dignidade, a autonomia e a justiça.


O mundo que temos hoje não é aquele que nos propusemos construir. A guerra e o extremismo voltaram, e o multilateralismo está sendo desmantelado à medida que as grandes potências impõem tarifas unilaterais, usam o acesso ao mercado como moeda de troca e substituem a diplomacia por ameaças. Isto prejudica todo mundo.


Como ministros das Finanças, nossa responsabilidade é insistir na resolução das divergências entre países por meio do diálogo e do direito. A recente assinatura do acordo UE-Mercosul – maior acordo deste tipo da história em termos de PIB combinado, e no qual ambos os nossos governos tiveram um papel central – é uma expressão concreta desse compromisso.


Lula tem procurado manter os canais de comunicação abertos com todos os atores, recusando alinhamentos automáticos e afirmando que o Sul Global tem voz própria. Da mesma forma, Sánchez defendeu o direito internacional contra ações unilaterais e cobrou da União Europeia a busca por mais autonomia estratégica. Ambos os governos mostraram que as políticas progressistas não são só benéficas para a economia; elas levam também a sociedades mais estáveis e justas.


Alguns de nós ainda preferem a lógica do direito à da força, a governança multilateral à fragmentação e a soberania digital em nome das pessoas comuns ao poder tecnológico concentrado. A verdadeira medida do progressismo não se encontrará nos discursos, mas em melhores condições de trabalho, moradia a preços acessíveis e acesso a uma educação que abra oportunidades reais. Agora, mais do que nunca, as pessoas precisam ver seus governos ao seu lado.






Dario Durigan é o Ministro da Fazenda do Brasil. Carlos Cuerpo é o Ministro da Economia, Comércio e Negócios da Espanha.



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