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domingo, 6 de setembro de 2026

A História da Economia



por James K. Galbraith


A legitimidade da economia enquanto disciplina acadêmica e ferramenta de elaboração de políticas tem se tornado alvo de ataques contínuos, ao menos desde a crise financeira de 2008. Contudo, poucas críticas procuram analisar as origens da disciplina e seu propósito subjacente. Agora, Antara Haldar, pesquisadora na área dos estudos jurídicos na Universidade de Cambridge, chamou a atenção para ambas as questões num novo livro, “Everyman: The Untold Story of Economics” (“O cidadão médio: A história não contada da economia”, em tradução livre do inglês).


Seu relato é fabuloso, e em mais de um sentido. Trata-se de uma fábula, estruturada (em três atos) como uma peça de teatro com personagens alegóricas (Neo, Tina, Tek, Finn, Davos, etc.), e contada numa mistura de estilos literários (com homenagens a John Steinbeck, Oscar Wilde e Ernest Hemingway, entre outros) que envergonham o conformismo enfadonho dos economistas da corrente predominante. O resultado é uma “história” da economia como nenhuma outra, com partes iguais de imaginação e verdade.


Haldar conta a história de duas famílias – ambas com igual dignidade. Uma remete à metáfora da “mão invisível” em “A Riqueza das Nações”, de Adam Smith , tal como interpretada por Friedrich August von Hayek, Lionel Robbins, Milton Friedman e a Sociedade de Mont Pèlerin. A outra começa com John Maynard Keynes e passa pelo seu “Circo” (Joan Robinson, Richard Kahn, Nicholas Kaldor, Piero Sraffa) antes de voltar a rumar para Hayek na figura de Paul Samuelson e, em seguida, desaparecer, tendo falhado em entregar o “Bezerro de Ouro” prometido por Keynes.


A história que Haldar conta é a da economia acadêmica anglo-americana dominante (e, em menor grau, das suas periferias pós-coloniais no Sul da Ásia e na América Latina), tal como foi influenciada pelos refugiados linha-dura da Europa Central de meados do século 20. (Vale notar que Marx e seus seguidores são deixados de lado.) Trata-se, portanto, da ascensão e do declínio – até agora incompleto – do“neo”-homo economicus. Thorstein Veblen já descreveu este homúnculo abstrato e amoral na virada do século 20 como “um calculador fulminante de prazeres e dores, que oscila como um glóbulo homogêneo de desejo de felicidade sob o impulso de estímulos que o deslocam pela área, mas o deixam intacto”.


O “neo” de Haldar tem como pai Friedman e como avô Hayek, que se inspirou em Smith, embora o autor de “A Teoria dos Sentimentos Morais” também possa ser considerado um antepassado distante de Keynes. A distinção entre as duas grandes obras de Smith é supostamente relacional: em “A Riqueza das Nações”, o progresso decorre do interesse próprio e da magia do mercado. Em “Sentimentos Morais”, Smith estava mais preocupado com as ligações sociais.


Outros defensores de uma visão relacional, a saber, Veblen e os pragmatistas e institucionalistas americanos, não aparecem aqui. (Meu pai, John Kenneth Galbraith, é referido como “de esquerda”, embora no auge da sua carreira fosse um líder consagrado daqueles a quem então se chamava “liberais”. A outra referência de Haldar a ele como “iluminador” é generosa e justa.)


À margem desta narrativa dominante, encontram-se dissidentes que ficaram horrorizados com os danos causados por Neo – e Tina (o “não há alternativa” de Margaret Thatcher), Tek (tecnologia) e Finn (finanças) –. Entre eles contam-se as irmãs metafóricas Gini (uma medida de desigualdade) e Palma (cujo nome deriva de uma proporção criada por um economista de Cambridge), além da “construtora de mundos” Tara (“existem alternativas reais”). Estas fadas oferecem à confusa Eve (Eve R. Y. Man) a esperança de um modelo mental melhor e de um mundo melhor. Como Palma diz a Eve: “Você não está perdida – foi desorientada deliberadamente. Por ele (Neo). Para ele, você é um rato num labirinto. Controlada com recompensas e castigos.”


O historiador econômico Karl Polanyi é uma inspiração fundamental para Haldar e suas heroínas. Ela descreve-o como uma figura “esbelta, de óculos”, com “olhos cintilantes e uma aura de calor, humanidade e curiosidade infinita”. Ele intervém à margem de um batizado imaginário, em 1946, do “neto” de Keynes, para alertar contra “o estado caótico do mundo em que a ‘ficção’ do dinheiro ditava os ‘fatos’ do trabalho e da terra”.


O Polanyi de Haldar antecipa que a “psique humana” se rebelará contra o que Neo criou e oferece como presente à criança o “enraizamento na comunidade” – mensagem que a própria Haldar subscreve plenamente. Encontrei esta passagem num sábado e levei-a comigo no dia seguinte, numa viagem de carro do sul de Vermont até um lar de idosos em Montreal, onde a li a Kari Polanyi, filha de Karl, que tem hoje 103 anos e se encontra nos seus últimos dias.


O ensinamento moral fundamental de Haldar fica bem claro. Neo era uma invenção, seu triunfo intelectual era uma quimera e as políticas por ele inspiradas trouxeram instabilidade, precariedade, desigualdade e crise. Seu amigo Finn sofreu uma parada cardíaca e o próprio Neo – embora ainda tenha o controle total sobre a academia – perdeu seu estatuto no mundo real para Tek, descendente de Joseph Schumpeter. A destruição criativa está na moda hoje – quanto mais descontrolada, desenfreada e cruel, melhor.


No entanto, as forças da dúvida e, potencialmente, da justiça (Gini, Palma e Tara) não estão adormecidas. Conseguirão prevalecer e conduzir Eve de volta à luz de Polanyi? Ou será que a multidão descontente, liderada por demagogos, triunfará? Confesso que, no fim, ainda estava indeciso, talvez porque a história não esteja concluída. Mas não tenho dúvidas de que Haldar desferiu um golpe poderoso contra Neo – um golpe do qual este não se recuperará facilmente, se este livro se tornar conhecido.


Vou terminar com uma pequena objeção. É sobre a metáfora definidora do mito da criação de Neo, a mão invisível. Haldar descreve-a como “um motivo para uma força que confere uma estranha concordância aos atos de homens que, de outro modo, não estariam ligados”. Mas isto é um erro, que aqui (e na maioria das citações) é obscurecido por uma elipse. O que Smith escreveu, na íntegra, foi:


“Ao preferir o apoio à indústria nacional em detrimento da estrangeira, ele visa só sua própria segurança; e ao orientar essa indústria de modo que sua produção tenha o maior valor possível, ele visa só seu próprio lucro; e, neste caso, como em muitos outros, é guiado por uma mão invisível promovendo um fim que não fazia parte da sua intenção.”


Em outras palavras, a mão invisível funciona precisamente porque as pessoas estão ligadas, neste caso como compatriotas. A “nação” em Smith é uma comunidade. Não há dois Smiths, e seus dois livros não são gêmeos divergentes. A nomeação dele como santo padroeiro de Neo (e de Davos) foi um sequestro. Talvez quando o espírito de Polanyi e dos seus aliados enfim triunfar, Smith seja libertado do seu domínio e possa voltar a juntar-se às fileiras dos economistas que podem honestamente reivindicá-lo como seu.




James K. Galbraith, professor na LBJ School of Public Affairs da Universidade do Texas em Austin, é o autor de The Power to Destroy: How Bad Economics Drove America's Decline (University of Chicago Press, 2026) e coautor (com Jing Chen) de Entropy Economics: The Living Basis of Value and Production (University of Chicago Press, 2025).

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