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domingo, 20 de setembro de 2026

Brasil, Europa, Quênia e Canadá lançam frente para reformar a ONU e fortalecer o multilateralismo

Iniciativa lançada às vésperas da Assembleia-Geral reúne Brasil, União Europeia, Quênia e Canadá e propõe instituições internacionais mais representativas diante do aumento dos conflitos e das crises globais

O documento é assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o presidente do Conselho Europeu, António Costa, do premiê do Canadá, Mark Carney, e do presidente do Quênia, William Ruto; na imagem, Lula em discurso na ONU em 2024


O presidente Luiz Inácio Lula da Silva se uniu aos líderes da União Europeia, do Quênia e do Canadá para defender uma reforma do sistema multilateral e da Organização das Nações Unidas (ONU), em uma iniciativa lançada neste domingo (20), às vésperas da abertura da 81ª Assembleia-Geral da organização, em Nova York.


Lula, o presidente do Conselho Europeu, António Costa, o presidente do Quênia, William Ruto, e o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, assinaram um artigo conjunto publicado pelo Financial Times no qual anunciam a criação da iniciativa Partners for Multilateralism (P4M). A proposta pretende reunir países de diferentes regiões e posições políticas em torno da defesa dos princípios da Carta das Nações Unidas e de mudanças nas instituições internacionais.


O documento parte de um diagnóstico de contradição: ao mesmo tempo em que o mundo está cada vez mais integrado economicamente e tecnologicamente, as relações entre os países se tornaram mais fragmentadas e marcadas por disputas geopolíticas.


Para os quatro líderes, o multilateralismo deixou de ser apenas uma aspiração política e passou a ser uma necessidade prática. A proposta não pretende criar uma estrutura internacional paralela à ONU, mas fortalecer e modernizar as instituições existentes.


O texto destaca que o comércio mundial alcançou níveis recordes e que quase três quartos da população global estão conectados à internet. Em sentido contrário, porém, os conflitos armados e os gastos militares cresceram. Segundo os dados citados pelos líderes, 2025 registrou 65 conflitos armados entre Estados em 35 países, o maior número desde 1946, enquanto os gastos militares globais chegaram a US$ 2,9 trilhões.


A iniciativa também aponta desafios que ultrapassam as fronteiras nacionais, como mudanças climáticas, inteligência artificial, pandemias, instabilidade financeira e vulnerabilidades nas cadeias globais de produção. São problemas que, pela própria natureza, exigem mecanismos de coordenação entre países.


Brasil no centro da defesa da reforma da ONU


A participação de Lula na iniciativa dá continuidade a uma posição que o governo brasileiro vem defendendo há anos: a necessidade de reformar as instituições criadas no pós-Segunda Guerra Mundial para refletir uma realidade internacional diferente daquela de 1945.


O Brasil reivindica, particularmente, mudanças no Conselho de Segurança da ONU, cuja estrutura permanente continua concentrada em cinco países — Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido. A posição brasileira inclui a defesa de maior representação de países da América Latina, da África e da Ásia nas estruturas decisórias da organização.


Em abril, durante um encontro internacional sobre democracia em Barcelona, Lula afirmou que a ONU precisa ser mais representativa e ter maior capacidade de responder aos conflitos internacionais. Na ocasião, o presidente brasileiro relacionou a reforma da governança global ao fortalecimento do multilateralismo e da democracia.


A nova iniciativa amplia esse debate ao reunir, além do Brasil, representantes de três importantes espaços geopolíticos: a União Europeia, o Quênia representando a África e o Canadá. Para os signatários, a diversidade dos participantes é justamente uma característica necessária para que a proposta consiga atravessar as divisões existentes na política internacional.


Uma frente sem novo bloco


Os quatro líderes procuram deixar claro que o P4M não pretende funcionar como um novo bloco político ou militar. A iniciativa é apresentada como uma plataforma aberta e flexível para países dispostos a trabalhar conjuntamente em reformas e soluções para problemas internacionais.


A ideia é formar coalizões diferentes conforme cada tema, aproximando governos que podem divergir em questões econômicas, políticas ou estratégicas, mas que compartilham princípios como a soberania dos Estados, a solução pacífica de conflitos e o respeito à Carta da ONU.


O Conselho Europeu descreve o P4M como uma rede destinada ao diálogo, à construção de coalizões e à cooperação prática. A plataforma deverá apoiar o trabalho das Nações Unidas e contribuir para a modernização das instituições multilaterais.


O primeiro encontro de alto nível da iniciativa está previsto para esta segunda-feira (21), em Nova York, durante a semana de alto nível da Assembleia-Geral da ONU. O encontro será copresidido por António Costa, William Ruto e Mark Carney.


A crise do sistema multilateral


A iniciativa ocorre em um momento de forte pressão sobre a própria capacidade de atuação da ONU. A organização enfrenta dificuldades financeiras, redução de programas humanitários e impasses no Conselho de Segurança, especialmente diante de conflitos nos quais países com poder de veto estão diretamente envolvidos.


A Assembleia-Geral deste ano também acontece sob o debate sobre como tornar a organização mais eficiente e representativa. O tema oficial da 81ª sessão é “Restoring trust, managing transformation: a United Nations that delivers for all” — recuperar a confiança e administrar as transformações para construir uma ONU que entregue resultados para todos.


A presença brasileira reforça a estratégia tradicional de Brasília de buscar articulações que ultrapassem a divisão entre grandes potências. Ao lado de uma potência econômica europeia organizada em torno da União Europeia, de um país africano e de uma potência média norte-americana, o Brasil participa de uma iniciativa que procura construir uma agenda internacional a partir da cooperação entre diferentes regiões.


A defesa do multilateralismo deverá ocupar novamente espaço central no discurso de Lula na abertura da Assembleia-Geral, marcada para terça-feira (22). O presidente brasileiro também deverá abordar a reforma do Conselho de Segurança, a soberania nacional, a solução pacífica de conflitos, questões ambientais e temas relacionados à segurança internacional.



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