Concentração em três commodities expõe o Brasil às mudanças na China - Blog A CRÍTICA

Últimas

Post Top Ad

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Concentração em três commodities expõe o Brasil às mudanças na China



por Francisca Grostein 

 


A China comprou US$ 99,9 bilhões em produtos brasileiros em 2025, o equivalente a 28,6% de tudo o que o país exportou no ano. Os Estados Unidos, segundo destino, ficaram com US$ 37,7 bilhões, ou 10,8%. A demanda chinesa foi decisiva para a expansão das exportações brasileiras, mas a distância entre os dois mercados também revela uma fragilidade que recebe menos atenção do que deveria.


O principal risco está na concentração da pauta exportadora, já que soja em grão, petróleo bruto e minério de ferro somaram cerca de US$ 74 bilhões em vendas à China no ano passado, quase três quartos do total exportado para aquele mercado e mais de um quinto de tudo o que o Brasil vendeu ao mundo. Uma fatia dessa dimensão, apoiada em três commodities e em um único comprador, deixa o país exposto às oscilações de preços e às escolhas de Pequim.


Esse quadro ganha importância porque o modelo de crescimento chinês está em transição. O setor imobiliário, que por décadas sustentou parte relevante da demanda por matérias-primas como o minério de ferro, perdeu dinamismo, enquanto investimentos e políticas públicas passaram a se concentrar em setores como veículos elétricos, baterias, energia renovável, inteligência artificial e manufatura avançada. Paralelamente, a China vem reforçando políticas de segurança econômica e de maior autossuficiência em áreas estratégicas, entre elas alimentos, energia e tecnologia.


Nada disso indica que a China deixará de comprar do Brasil tão cedo, já que a dimensão daquele mercado e a competitividade do agronegócio e da mineração brasileiros tornam uma retração abrupta pouco provável. Mas ganhos de produtividade no campo chinês, ajustes na política industrial ou uma nova estratégia de segurança alimentar podem, ao longo dos anos, alterar o volume e o perfil dessas compras.


Mais do que reduzir o comércio com seu principal parceiro, o Brasil precisa diversificar produtos e mercados e aproveitar o investimento chinês para ampliar sua participação em atividades de maior valor agregado, como insumos, componentes e bens industriais ligados às novas cadeias produtivas priorizadas pela própria China. É uma agenda antiga, que a transformação em curso na economia chinesa tornou mais urgente.




Francisca Grostein é professora de comércio exterior do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas (CCSA) da Universidade Presbiteriana Mackenzie e membro do Núcleo de Estudos sobre a China (NECH)


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Post Bottom Ad

Pages