Repórter em zonas de conflito, autor do arremesso de celular que viralizou e mediador do debate da cadeirada de Datena, ele reflete em livro sobre medo, ódio e impulsividade
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Qual a relação entre um campo minado nos Bálcãs, um celular arremessado, uma cadeirada transmitida ao vivo e o 11 de Setembro? Em Como se proteger de uma granada - Sobrevivência em um mundo de guerras, disputas políticas e redes sociais, lançamento da Matrix Editora, o jornalista Leão Serva se revela o denominador comum entre esses episódios.
Repórter que cobriu guerras em quatro continentes e mediador de alguns dos debates eleitorais de maior repercussão da história recente, o autor investiga como as pessoas reagem diante das ameaças e mostra por que o jornalismo se tornou, ao mesmo tempo, mais perigoso, mais atacado e mais confundido com o ruído das redes.
Ao longo de mais de três décadas, ele cobriu conflitos que vão da Bósnia e da Sérvia a Moçambique, ao Kuwait e, mais recentemente, a Israel. No livro, revive passagens como a intervenção norte-americana em Mogadício, na Somália, recupera a cobertura da guerra civil de Angola, quando, logo após a "Guerra dos 3 Dias" em Luanda, ele e uma equipe que incluía Pedro Bial foram detidos por guerrilheiros e tiveram os equipamentos retidos. A esses relatos soma-se a simulação de campo minado e de sequestro que viveu, em 2002, num curso britânico de sobrevivência para jornalistas em zonas hostis.
Partindo desses perigos concretos, o autor reflete tanto sobre as granadas verdadeiras quanto as "granadas simbólicas" do cotidiano e persegue uma pergunta: como manter frieza e razão diante do impulso? Para enfrentá-las, recorre ao chamado "cérebro reptiliano" e a uma antiga mandala indiana, cujo centro reúne um porco, um galo e uma serpente, representando a ignorância, o medo e o ódio. Esses animais ilustrariam as reações mais automáticas de qualquer pessoa, e o jornalista os transporta para a era dos algoritmos, onde a tela do celular vira o cocho para o "porco" chafurdar distraído, bastando uma farpa para o "galo" se assustar e dar lugar à "serpente", pronta para o bote nos comentários.
Personagem de cenas que marcaram o noticiário nacional e eternizado na internet como meme, o autor detalha os bastidores do episódio que culminou com um celular arremessado, em 2022, quando ele arrancou e jogou longe o aparelho de um deputado que hostilizava uma colega jornalista. Serva conta também sobre o que testemunhou do palco quando quando José Luiz Datena agrediu o então adversário político Pablo Marçal com uma cadeirada durante um debate entre candidatos à Prefeitura de São Paulo, em 2024.
Ao conectar jornalismo, terrorismo e extremismo político, o autor reconhece que a profissão tem uma vocação estrutural para destacar o inusitado e o negativo, a mesma mecânica de que o terrorismo se vale para amplificar o medo por meio da imprensa. Nada ilustra melhor esse paradoxo do que o "Dia da Boa Notícia". Em 2001, à frente do Último Segundo, primeiro jornal digital do país, ele reservou o dia 11 de setembro para um experimento editorial: publicar apenas notícias positivas. A data, porém, se tornaria a mais sombria da história recente, palco do maior atentado terrorista já registrado nos Estados Unidos.
Sem cair no sermão, Serva examina o cansaço de viver sob o bombardeio das más notícias, a tentação de reagir sem pensar e a dificuldade de manter o equilíbrio quando o debate público vira ringue. Mostra por que somos atraídos pelo pior e como o medo se converteu em moeda valiosa, das redes sociais à política, e propõe algo raro: reconhecer os próprios gatilhos antes de agir. Da experiência de "morrer" num treinamento de sobrevivência para repórteres, o autor extrai a frase que sintetiza a obra, "morrer foi um jeito de aprender a não morrer".
Como se proteger de uma granada é uma leitura de duplo apelo. De um lado, o relato de quem viveu de perto as guerras e os bastidores do jornalismo, narrado com humor e franqueza para consigo mesmo; de outro, um guia despretensioso para entender as próprias reações num tempo em que quase tudo parece calculado para provocá-las. Entre a granada real e a metafórica, Serva sugere que, nos dois casos, a melhor defesa talvez seja a busca contínua por um instante de lucidez antes do próximo impulso.
Ficha técnica
Título: Como se proteger de uma granada – Sobrevivência em um mundo de guerras, disputas políticas e redes sociais
Autoria: Leão Serva
Editora: Matrix Editora
ISBN: 978-65-5616-692-6
Páginas: 129
Preço: R$ 45,00
Onde encontrar: Matrix Editora, Amazon e livrarias de todo o país
Sobre o autor
Leão Serva é jornalista, escritor e pesquisador em pós-doutorado no Departamento de Antropologia da USP. Ex-diretor de jornalismo e ex-correspondente da TV Cultura em Londres (2019-2025). Participou da criação do iG (Internet Grátis), do jornal eletrônico Último Segundo e do diário esportivo Lance!. Foi correspondente internacional da Folha de S.Paulo, em que também atuou como secretário de redação. Dirigiu a redação de veículos como Notícias Populares, Jornal da Tarde, Diário de S.Paulo, Revista Placar, entre outros. Mestre e doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, fez pesquisa doutoral no Instituto Warburg (Universidade de Londres, 2017). Sócio-fundador do Instituto Socioambiental (ISA), acompanhou como repórter o fotógrafo Sebastião Salgado no projeto “Amazônia”. É autor de diversos livros, como “Jornalismo e desinformação”, “A fórmula da emoção na fotografia de guerra” e “Um tipógrafo na Colônia”. É professor de Ética Jornalística na ESPM-SP.
Sobre a Matrix Editora
Apostar em novos talentos, formatos e leitores. Essa é a marca da Matrix Editora, desde a sua fundação em 1999. A Matrix é hoje uma das mais respeitadas editoras do país, com mais de 1.100 títulos publicados e oito novos lançamentos todos os meses. A editora se especializou em livros de não-ficção, como biografias e livros-reportagem, além de obras de negócios, motivacionais e livros infantis. Os títulos editados pela Matrix são distribuídos para livrarias de todo o Brasil e também são comercializados no site www.matrixeditora.com.br.


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