Às vésperas das eleições, pesquisas revelam dúvidas sobre as instituições e os limites do poder; a psicanalista Camila Camaratta propõe uma reflexão sobre o que acontece quando as regras deixam de ser percebidas como comuns a todos
Às vésperas das eleições, a polarização volta ao centro do debate público. Mas a palavra talvez descreva apenas uma parte do que está acontecendo. Por trás das divergências políticas, há uma questão menos visível: o que acontece quando deixamos de confiar que as mesmas regras valem para todos?
É nesse terreno que a psicanalista Camila Camaratta situa o que chama de “mal-estar cívico”. Em vez de buscar na psicanálise uma explicação para posições políticas, ela propõe olhar para algo anterior: as renúncias necessárias à vida em comum e a confiança de que elas não serão exigidas apenas de alguns.
“O limite não é apenas aquilo que nos impede; é também aquilo que nos protege.”
Nenhuma vida coletiva é possível se cada um puder fazer valer integralmente a própria vontade. Mas, para Camaratta, há uma condição importante para que essa renúncia seja suportável: a percepção de reciprocidade. A regra que restringe uma pessoa deve também restringir aquilo que outra pode fazer contra ela.
“Quando a regra é reconhecida como comum, posso suportar que ela me limite. Quando começo a acreditar que ela limita a mim, mas não ao outro, a renúncia deixa de parecer civilizatória e passa a ser vivida como injustiça.”
Quando essa reciprocidade se rompe — sobretudo diante de quem exerce poder —, à sensação de desigualdade pode se acrescentar uma experiência de desamparo.
A psicanálise ajuda a compreender essa tensão sem transformar o debate político em diagnóstico. A ambivalência faz parte da experiência humana: é possível buscar proteção e referência na autoridade e, ao mesmo tempo, entrar em conflito com ela. E quem ocupa uma posição de poder não deixa essa condição humana do lado de fora.
“Quem exerce poder não lança mão de sua subjetividade ao assumir uma função. É justamente por isso que o exercício do poder não pode depender apenas de quem o exerce.”
Nesse sentido, a lei funciona como uma referência que precisa permanecer para além das disposições pessoais de quem circunstancialmente ocupa uma função. Quando essa estabilidade deixa de ser percebida, perde-se também parte da segurança que ela deveria garantir.
Essa reflexão encontra eco em dados recentes sobre a confiança dos brasileiros nas instituições. O Índice de Confiança Social 2026, da Ipsos-Ipec, registrou 55 pontos em uma escala de zero a
- A confiança nas pessoas e nos grupos sociais próximos chegou a 63 pontos, enquanto nas instituições ficou em 54.
Outro levantamento, do Datafolha, mostrou que 71% dos entrevistados consideravam o Supremo Tribunal Federal essencial para proteger a democracia, enquanto 76% concordavam que seus ministros tinham poder demais.
Os números colocam lado a lado sentimentos que, à primeira vista, poderiam parecer contraditórios. É possível reconhecer a importância de uma instituição e, ao mesmo tempo, questionar o alcance do poder daqueles que a integram.
É nesse ponto que surge outra questão levantada pela psicanalista: o espírito de corpo. Todo grupo depende de algum grau de pertencimento e coesão, e vínculos de lealdade podem contribuir para a sustentação das instituições. O problema aparece quando preservar a instituição passa a se confundir com preservar aqueles que a ocupam.
Há aí um paradoxo: uma instituição pode ser necessária e valiosa e, ao mesmo tempo, seus integrantes podem desenvolver formas de se preservar que terminem por fragilizar a confiança nela.
“Uma instituição não é quem temporariamente a ocupa.”
A distinção permite separar duas coisas que muitas vezes aparecem misturadas no debate público: questionar a atuação de integrantes de uma instituição não significa necessariamente questionar a necessidade ou o valor da própria instituição.
“A civilização exige limites à liberdade. A liberdade exige limites ao poder de limitar.”
Se a confiança nas instituições é uma dimensão desse mal-estar, a maneira como os grupos políticos enxergam uns aos outros acrescenta outra. Pesquisa da Ipsos-Ipec, encomendada pela More in Common Brasil, encontrou um descompasso entre aquilo que pessoas de campos políticos opostos efetivamente pensavam e o que cada grupo imaginava que o outro pensava.
O resultado não apaga divergências políticas reais, mas mostra que, em determinados temas e valores avaliados pela pesquisa, os dois grupos tinham posições mais próximas do que imaginavam. Ou seja, acreditavam discordar mais uns dos outros do que suas próprias respostas mostravam.
O dado ajuda a recolocar a própria ideia de polarização. A palavra descreve uma divisão real, mas não explica sozinha o que acontece quando a distância atribuída ao outro se torna maior do que aquela encontrada em algumas de suas posições concretas — nem o que ocorre quando se enfraquece a confiança de que regras comuns continuarão valendo independentemente de quem esteja no poder.
E essa questão não necessariamente termina quando as urnas são fechadas. Uma eleição muda quem ocupa determinados lugares de poder, mas também pode inverter posições: quem antes reivindicava proteção pode passar a exercer poder; quem se identificava com quem o exercia pode passar a exigir garantias.
É aí que a reflexão proposta por Camaratta retorna ao ponto de partida: os limites reivindicados quando um grupo se sente ameaçado continuam necessários quando passam a conter aqueles com quem ele se identifica? E as garantias defendidas para os seus continuam válidas quando precisam proteger aqueles de quem discordam?
“Uma democracia não exige consenso. Foi feita justamente porque ele não existe.”
O mal-estar de viver juntos é inevitável. O mal-estar cívico começaria em outro lugar: quando já não se confia que aquilo que vale para um será capaz de valer também para o outro quando há alternância de poder.


Nenhum comentário:
Postar um comentário