Um dos problemas mais graves do subdesenvolvimento é a falta de empregos para a juventude. Na década de 1990, ficou conhecido no mundo todo, em Argel, capital da Argélia, o fenômeno do chamado “povo do muro”: pessoas que passavam o dia escoradas em muros, contemplando o movimento do trânsito, simplesmente porque não tinham o que fazer. No Brasil, ainda temos o “povo da calçada”: gente que passa o dia comentando a vida alheia, por desfastio, falta de oportunidades e, muitas vezes, pela precariedade da formação educacional.
O subdesenvolvimento brasileiro fez com que a chamada “luta de classes” se desse, em boa medida, dentro do próprio Estado, numa espécie de feudalismo patrimonialista em que o indivíduo, sozinho, não é quase nada. Precisa, antes de tudo, ser amigo de alguém importante — e, sobretudo, não pode criticá-lo jamais. Outro dia, aqui no Rio Grande do Norte, um grupo foi preso sob suspeita de tentar fraudar um concurso público utilizando escutas. Exatamente porque o concurso subverte a lógica patrimonialista.
As prefeituras brasileiras utilizam a distribuição de cargos para acomodar aliados dos prefeitos. O resultado costuma ser uma máquina pública inchada, pouco eficiente e formada por pessoas submetidas aos desejos do demagogo de plantão. Quem ocupa um cargo comissionado sabe que sua permanência pode depender menos da competência profissional do que da fidelidade política.
Em Caicó, nas eleições de 2024, vazou um áudio em que uma aliada do prefeito, então candidato à reeleição, ordenava que comissionados de um hospital da cidade — instituição que há décadas ocupa um lugar estratégico nas disputas políticas locais — participassem dos bizarros atos de campanha que, no vocabulário político de terceiro mundo, recebem nomes como “arrastões” e “carreatas”.
A lógica é simples: se você ocupa um cargo público por indicação política, deve demonstrar gratidão política. Não basta trabalhar. É preciso vestir a camisa, sacudir a bandeira, entrar na carreata, participar do arrastão e, se possível, aparecer nas fotografias. A democracia transforma-se, assim, em uma espécie de gincana de lealdade ao chefe político.
E agora, ao que parece, essas pessoas precisam comparecer diariamente aos atos de campanha, sob pena de perder o emprego.
É aí que o patrimonialismo mostra sua face mais vulgar. O emprego que deveria garantir autonomia ao cidadão transforma-se em instrumento de submissão. O servidor deixa de ser cidadão e passa a ser cabo eleitoral involuntário. A liberdade de escolha, que deveria ser um dos fundamentos da democracia, torna-se um luxo para quem não depende do contracheque distribuído pelo grupo político que ocupa a prefeitura.
Caicó passou mais de uma década sem realizar concurso público, chegando ao ponto de o Ministério Público precisar recomendar a realização de concurso para recompor o quadro efetivo do município.
O problema, portanto, não é apenas administrativo. É político e social. Onde faltam empregos privados, educação de qualidade e oportunidades econômicas, o cargo público passa a valer como uma espécie de feudo moderno. O prefeito distribui empregos, o aliado distribui favores e o eleitor oferece sua lealdade.
E assim se estabelece o pacto mais antigo da política subdesenvolvida: ou sacode a bandeira ou perde o emprego.



Nenhum comentário:
Postar um comentário