Enquanto apenas 54% dos postos previstos pela Lei de Cotas estão preenchidos, levantamento do Infojobs mostra concentração das oportunidades para PcD em funções operacionais, auxiliares e de assistência
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Mais de três décadas após a criação da Lei de Cotas (Lei 8.213/1991), que obriga empresas com 100 ou mais empregados a reservar de 2% a 5% dos cargos para pessoas com deficiência, o Brasil ainda está distante de ocupar todos os postos previstos pela legislação. Segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego, apenas 54% das vagas reservadas estavam efetivamente preenchidas em 2025, considerando um universo de aproximadamente 964,7 mil postos em todo o país.
O cenário chama atenção diante do contingente de profissionais que poderia acessar essas oportunidades. O Censo 2022 do IBGE registrou 14,4 milhões de pessoas com deficiência no Brasil, das quais apenas 29% estavam empregadas. Já dados do Ministério do Desenvolvimento Social apontam 7,3 milhões de pessoas com deficiência ou autismo em idade de trabalhar e que não recebem benefícios assistenciais.
Além da dificuldade de preenchimento das cotas, outro desafio aparece no perfil das oportunidades oferecidas. Levantamento do Infojobs com vagas destinadas a PcD publicadas entre janeiro e julho de 2026 mostra que 89,1% das oportunidades estão concentradas nos níveis operacional, auxiliar e assistente. Das 7.210 vagas analisadas, 48,3% eram para funções operacionais, 27,5% para cargos auxiliares e 13,4% para posições de assistente.
A presença diminui à medida que aumenta o nível hierárquico. Cargos de analista representam 5,4% das vagas do período, enquanto as posições de especialista correspondem a 1,3%. O levantamento também identificou oportunidades para consultores, supervisores, coordenadores, trainees e estagiários, porém em volumes menores.
Para Monize Oliveira, Gerente Sênior de Comunicação e Marketing da Redarbor Brasil, detentora do Infojobs, os números reforçam que o avanço da inclusão depende não apenas da abertura de oportunidades, mas também da ampliação dos espaços profissionais ocupados por pessoas com deficiência.
“O desafio da inclusão não termina quando uma vaga afirmativa é aberta. Precisamos avançar para que profissionais com deficiência tenham acesso a diferentes áreas, níveis hierárquicos e possibilidades de desenvolvimento de carreira. Quando as oportunidades ficam concentradas em determinados perfis de função, parte do potencial desses profissionais pode deixar de ser aproveitada”, afirma.
A distribuição por áreas também mostra onde está atualmente a maior parte da demanda. Comercial e Vendas concentra 27,9% das vagas para PcD, seguida por Administração, com 15,6%, e Logística, com 13,3%. Na sequência aparecem Serviços Gerais, com 6,9%, e Industrial, Produção e Fábrica, com 6,7%.
Entre as especializações mais presentes estão Administração Geral, com 937 oportunidades, Lojas e Shopping, com 885, Atendimento, com 774, Limpeza, com 426, e Estoque, Armazenagem e Depósito, com 354 vagas. Produção e Logística também aparecem entre os segmentos com maior volume.
Os próprios títulos das vagas reforçam essa concentração. “Auxiliar” foi a palavra mais recorrente, presente em 1.726 oportunidades, seguida por “operador”, com 950 ocorrências, “assistente”, com 773, e “atendente”, com 359. “Analista” aparece em 270 registros.
Para Monize, a diversidade também precisa ser observada sob a perspectiva da trajetória profissional.
“Cumprir a cota legal é um ponto de partida, mas inclusão significa criar condições para que esses profissionais entrem, permaneçam, se desenvolvam e possam crescer dentro das empresas. Isso envolve processos seletivos acessíveis, adaptações adequadas, desenvolvimento de lideranças e, principalmente, uma cultura que enxergue a pessoa com deficiência para além da obrigação legal”, completa.


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