| Fernando Frazão/Agência Brasil |
A edição de agosto do Ipsos What Worries the World mostra um aumento da intensidade de algumas das principais preocupações dos brasileiros, embora a ordem do ranking permaneça inalterada. Crime e violência seguem na liderança, com 47%, alta de 4 pontos percentuais em relação a julho e de 5 pontos na comparação com agosto de 2025. Corrupção política e financeira aparece em segundo lugar, com 38%, avançando 2 pontos no mês e 5 pontos em 12 meses, enquanto pobreza e desigualdade social chega a 35%, alta de 2 pontos em relação a julho e estável na comparação anual. Saúde recua para 33%, queda de 2 pontos percentuais no mês e de 1 ponto percentual em relação ao ano passado, e impostos ficam em 28%, com retração de 2 pontos no mês e de 3 pontos na comparação anual. O movimento indica que, apesar de a hierarquia das preocupações permanecer estável, temas ligados à segurança, às instituições e às condições sociais ganharam intensidade no mês.
O avanço de crime e violência ocorre em um contexto em que a segurança pública voltou a ocupar espaço relevante no debate nacional. Em agosto, a Polícia Federal divulgou os resultados da Operação Omnes, que entre maio e agosto resultou em 724 prisões de investigados ou condenados por homicídio e feminicídio, enquanto ações integradas de combate ao crime organizado contabilizaram mais de 25 mil prisões e R$ 7,6 bilhões em prejuízos estimados às organizações criminosas nos primeiros 90 dias. Crimes recentes de linchamento de pessoas suspeitas de crimes que eram inocentes também acendem um alerta importante sobre o quanto essa preocupação com a violência pode também gerar violência em tentativas equivocadas de justiça com as próprias mãos.
A preocupação com corrupção também encontra eco em novos desdobramentos de investigações: em agosto, a segunda fase da Operação Sem Refino apurou suspeitas de fraude, lavagem de dinheiro, sonegação e outros crimes ligados à comercialização de combustíveis, tendo entre os alvos o ex-governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro. A combinação desses episódios ajuda a contextualizar por que segurança e integridade das instituições voltam a ganhar peso na percepção dos brasileiros.
Na percepção sobre o rumo do país, o movimento é mais positivo. A parcela de brasileiros que acredita que o Brasil está na direção certa chega a 40%, oscilação positiva de 1 ponto percentual em relação a julho e de 2 pontos na comparação anual, enquanto a percepção de que o país está no rumo errado recua para 60%.
No cenário global, a fotografia permanece bastante estável. Crime e violência continuam liderando, com 32%, mesmo patamar de julho e de agosto de 2025, seguidos por inflação (29%), pobreza e desigualdade social (29%), desemprego (29%) e corrupção política e financeira (27%). As oscilações são pequenas: inflação e corrupção recuam 1 ponto no mês, enquanto os demais temas permanecem estáveis. A percepção de que os países estão na direção certa, por sua vez, sobe 1 ponto e chega a 39%, também 2 pontos acima do registrado um ano antes. O quadro global, portanto, continua marcado mais pela persistência das preocupações já conhecidas do que por uma mudança significativa na agenda da população.
Nos Estados Unidos, a inflação permanece como principal preocupação, mas recua 3 pontos no mês, chegando a 43%, ainda 5 pontos acima do registrado em agosto de 2025. Corrupção política e financeira avança 2 pontos, para 31%, e fica 4 pontos acima do patamar de um ano atrás. Saúde recua para 24%, enquanto crime e violência permanecem em 23% e pobreza e desigualdade social chega a 21%. O movimento mais amplo aparece no indicador de rumo: apenas 28% dos americanos acreditam que o país está na direção certa, uma queda de 3 pontos no mês e de 10 pontos na comparação anual, fazendo dos Estados Unidos o país com a pior percepção de rumo certo entre os mercados do continente americano. A leitura ocorre em um ambiente de forte disputa política e questionamentos sobre a atuação do governo Trump, incluindo novas discussões sobre conflitos de interesse e o uso de negócios privados pelo presidente e sua família. Uma pesquisa Reuters/Ipsos divulgada em agosto mostrou que 63% dos americanos consideram que Trump e sua família lucraram de forma inadequada com negócios ligados a criptomoedas desde seu retorno à Casa Branca.
Na Argentina, o cenário mostra uma combinação diferente: a preocupação com desemprego permanece muito elevada, mas recua 5 pontos no mês, para 55%, mas ainda 5 pontos acima do registrado em agosto de 2025. Pobreza e desigualdade social sobe para 46%, enquanto inflação recua para 32% e crime e violência cai para 33%, acumulando queda de 7 pontos na comparação anual. Corrupção política e financeira também recua 1 ponto no mês, mas permanece 7 pontos acima do patamar de um ano atrás. A percepção sobre o rumo do país, entretanto, sofre uma deterioração mais expressiva: apenas 39% acreditam que a Argentina está na direção certa, queda de 5 pontos percentuais em relação a julho e de 10 pontos na comparação anual. O movimento acontece em meio à persistência das discussões sobre os efeitos sociais do ajuste econômico promovido pelo governo Milei. Em agosto, mais de 50 mil trabalhadores marcharam em Buenos Aires contra o modelo econômico do governo, com reivindicações relacionadas a emprego, renda e condições de trabalho.
Enquanto a Argentina perde 5 pontos no mês, o Peru registra um salto de 21 pontos percentuais na percepção de rumo certo, saindo da última posição do ranking, que compartilhava com a França, para assumir a liderança entre os países das Américas, com 47%, no comparativo anual, esse aumento foi de 37 pontos percentuais.
Na França, a percepção de rumo permanece especialmente negativa: apenas 10% acreditam que o país está na direção certa, mantendo o pior resultado entre os mercados analisados. Entre as principais preocupações, crime e violência recua 5 pontos em relação a julho, para 36%, enquanto inflação sobe 1 ponto, chegando a 34%. Mudanças climáticas permanecem entre os temas de destaque, com 29%, mesmo após uma queda de 4 pontos no mês, mas ainda 10 pontos acima do registrado um ano antes. Pobreza e desigualdade social avançam para 25%, e controle da imigração permanece em 25%. O quadro combina, portanto, uma percepção persistentemente negativa sobre os rumos do país com preocupações que refletem tanto questões econômicas e sociais quanto temas políticos e ambientais.
"Os resultados de agosto mostram um cenário em que não há uma ruptura na agenda de preocupações, mas mudanças na intensidade com que alguns temas são percebidos. No Brasil, segurança, corrupção e desigualdade ganham força sem alterar a ordem do ranking, enquanto a percepção sobre o rumo do país apresenta uma melhora discreta", afirma Diego Pagura, CEO da Ipsos. "No exterior, os movimentos mais expressivos aparecem menos na hierarquia das preocupações e mais na avaliação sobre a direção dos países, especialmente no Peru e na Argentina, enquanto o cenário global permanece relativamente estável", completa.


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