Levantamento cruza mapa de grupos armados com resultado de 37,7 mil seções no primeiro turno de 2026 e aponta diferenças na participação eleitoral
![]() |
| Tomaz Silva/Agência Brasil |
Mais de um terço (36,6%) do eleitorado do estado do Rio de Janeiro, o equivalente a 4,7 milhões de pessoas, vota em locais de votação situados em áreas dominadas por milícias ou facções. É o que aponta o estudo “Dos territórios dominados à urna”, realizado pelo IBEVARe pela FIA Business School.
O levantamento mostra que, nessas áreas, a abstenção e os votos brancos e nulos foram maiores do que nos locais situados em áreas livres de domínio, com diferenças entre os grupos. Já a evolução dos votos válidos de Lula e de Flávio Bolsonaro entre 2022 e 2026 nas áreas dominadas acompanhou movimento semelhante ao observado nas áreas livres.
A abstenção foi de 23,9% nas áreas dominadas por grupos armados, contra 22,1% nas áreas livres, uma diferença de 1,7 ponto percentual, equivalente a cerca de 82 mil abstenções a mais. Em 2022, a diferença era de 1,4 ponto percentual. Quando são comparados apenas locais de votação dentro do mesmo município, a diferença cai para 0,8 ponto percentual e deixa de ser estatisticamente distinguível de zero. Segundo o estudo, parte da diferença está relacionada ao fato de as áreas dominadas estarem localizadas em cidades que apresentam taxas de abstenção mais altas.
Também há diferenças entre os grupos. ADA (25,5%) e TCP (25,2%) apresentam as maiores taxas de abstenção, seguidos pelas áreas de milícia (24,3%) e pelo CV (23,0%). Todos os grupos apresentam índices superiores aos das áreas livres. Na comparação dentro do mesmo município, porém, apenas o CV permanece claramente acima.
Os votos brancos e nulos apresentam a diferença mais robusta identificada pelo estudo. Nas áreas dominadas, eles representam 5,7% dos votos, contra 4,3% nas áreas livres, uma diferença de 1,3 ponto percentual. Os votos nulos respondem por uma diferença de 0,9 ponto percentual, enquanto os votos brancos apresentam diferença de 0,5 ponto. Quando a comparação é feita dentro do mesmo município, a diferença sobe para 1,9 ponto percentual. Em 2022, a diferença já era de 1,4 ponto.
Entre os grupos, TCP (6,2%) e ADA (6,1%) apresentam os maiores percentuais de votos brancos e nulos. Milícia e CV registram 5,6% cada e não se distinguem entre si. Todos os grupos apresentam percentuais superiores aos das áreas livres.
Na comparação entre 2022 e 2026, a variação dos votos válidos de Lula e de Flávio Bolsonaro nas áreas dominadas acompanhou a observada nas áreas livres. Segundo o estudo, a diferença entre os dois tipos de área não é estatisticamente distinguível de zero, tanto no conjunto das áreas dominadas quanto na análise de cada grupo separadamente. Os números por candidato estão disponíveis no estudo completo.
O levantamento não indica que os grupos armados determinem a abstenção, os votos brancos e nulos ou o voto. As áreas dominadas são, em média, mais pobres, e o estudo não controla variáveis como renda, cor ou escolaridade. Os números também se referem aos eleitores por local de votação, e não aos moradores que vivem sob domínio de determinado grupo.
Além disso, as diferenças de participação já estavam presentes em 2022: a abstenção era 1,4 ponto percentual maior e os votos brancos e nulos também apresentavam diferença de 1,4 ponto entre áreas dominadas e livres.
O mapa utilizado para identificar os grupos armados é de 2024 e foi elaborado por outros pesquisadores, do GENI/UFF e do Instituto Fogo Cruzado. O estudo do Ibevar e da FIA adota essa classificação sem realizar uma nova verificação.
Para realizar a análise, o estudo cruzou o Mapa Histórico dos Grupos Armados do Rio de Janeiro, elaborado pelo GENI/UFF e pelo Instituto Fogo Cruzado em sua versão de 2024, com os boletins de urna de 37.675 seções eleitorais do estado e a localização de 5.046 locais de votação. A análise comparou áreas dominadas e áreas livres nos pleitos de 2026 e 2022.
Os totais foram confrontados com os dados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), incluindo votos de Lula e Flávio Bolsonaro, eleitores aptos e abstenções. As diferenças foram testadas com intervalos de confiança de 95% e a análise foi refeita utilizando nove definições de território.
A consolidação dos dados — incluindo a coleta dos arquivos públicos do TSE, leitura do mapa, cruzamento das informações, cálculos e elaboração dos gráficos — e a finalização do relatório foram realizadas com o auxílio do Claude, assistente de inteligência artificial da Anthropic, sob condução dos pesquisadores. Todos os números podem ser reproduzidos a partir das fontes públicas, dos arquivos derivados e das conferências com o TSE descritas no estudo.
O estudo “Dos territórios dominados à urna” foi conduzido pelos pesquisadores Prof. Dr. Carlos Eduardo Furlanetti e Prof. Dr. Claudio Felisoni de Angelo, do IBEVAR e da FIA Business School.



Nenhum comentário:
Postar um comentário