As abelhas que tememos são as mesmas que precisamos proteger? - Blog A CRÍTICA

Últimas

Post Top Ad

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

As abelhas que tememos são as mesmas que precisamos proteger?

Foto: CRUCIOL, Magda


por Cynthia Lima 


Quando pensamos em abelhas, é natural que rapidamente associemos a espécie exótica Apis mellifera (melífera), com seu corpo geralmente marrom ou amarelado, marcado por faixas mais escuras, ela é famosa pela produção da maior parte do mel que consumimos e pelo ferrão que inspira medo em muitas pessoas. Mas será que todas as abelhas são assim? A verdade é que existem mais de 20 mil espécies de abelhas no mundo, com diferentes tamanhos, cores, hábitos e modos de vida. Embora as abelhas sociais, que vivem em colônias organizadas, sejam as mais conhecidas, elas representam menos de 10% das abelhas descritas. Diferente da melífera, a maior parte das abelhas não produz mel em quantidades que possam ser exploradas comercialmente, nem cera, geleia real ou própolis em escala semelhante. Além disso, a maioria prefere viver de forma solitária. No Brasil, temos uma grande diversidade de abelhas nativas, entre elas as chamadas abelhas sem ferrão (melíponas). Muitas produzem mel, embora em quantidades menores do que as abelhas utilizadas na apicultura comercial. Mas o que todas elas têm em comum? A enorme importância para o funcionamento dos ecossistemas: a polinização.


A palavra vem do nome ‘pólen’, e acontece quando os grãos são transportados da parte masculina até a parte feminina de uma flor. Ao visitar uma flor em busca de alimento, muitas abelhas acabam carregando grãos de pólen em seus corpos e os depositam em outras flores. Ao visitar flores para coletar néctar e pólen, essenciais para sua alimentação, realizam um serviço ecossistêmico fundamental. A polinização favorece a reprodução e contribui para a variabilidade genética das plantas, ajudando a manter a biodiversidade das florestas. A importância das abelhas também está à nossa mesa. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), cerca de três quartos dos principais tipos de culturas agrícolas do mundo dependem desses polinizadores. Isso evidencia como esses animais são extremamente importantes para a nossa segurança alimentar. Além disso, durante estas visitas, as abelhas são impregnadas por microrganismos e substâncias químicas presentes na atmosfera, nos oferecendo outra função extremamente importante, indicador da qualidade do ar. Se algo resulta na diminuição da polinização, há alterações em toda a cadeia de relações ecológicas. Mas apesar da enorme importância desses insetos; o desmatamento, mudanças climáticas, o uso inadequado de pesticidas e a expansão de monoculturas estão entre os fatores associados ao declínio de diversas populações.


Ultimamente, as abelhas têm aparecido nas notícias como grandes vilãs: com acidentes envolvendo enxames em áreas urbanas. Esses episódios podem causar ferimentos e, em algumas ocasiões levar ao óbito, principalmente quando se trata de pessoas alérgicas ao veneno. A preocupação com a segurança das pessoas é legítima e exige atenção das autoridades, especialmente se há colônias próximas a residências, escolas e locais de grande circulação. No Brasil, a espécie que tem sido relacionada à maioria dos acidentes, é a Apis mellifera. Elas apresentam um comportamento defensivo quando se sentem ameaçadas. Ao atacar, liberam um feromônio que resulta no ataque de outras contra um mesmo alvo. É importante compreender que esses animais estão apenas respondendo a estímulos que interpretam como ameaça. Os ataques costumam ser mais frequentes durante o verão, devido a reprodução e migração que se intensificam neste período. Por isso, a orientação é acionar o corpo de bombeiros e manter distância do local onde o enxame/colmeia tenha sido visto. Em caso de ataque, a orientação é correr o mais rápido possível, para se afastar da colmeia. Uma curiosidade é que as abelhas são sensíveis a odores fortes e barulho, podendo ficar mais agressivas. Além disso, algumas abelhas morrem depois de picar uma pessoa. Na melífera o ferrão possui pequenas estruturas que podem ficar presas na pele humana. Ao se afastar, a abelha pode sofrer uma lesão fatal, perdendo parte do aparelho digestivo. Mas isso não acontece com todas as abelhas, e nem todas as espécies que possuem ferrão morrem depois de utilizá-lo.


O maior desafio dos pesquisadores na área, é fazer com que as pessoas compreendam que as abelhas não se resumem à produção de mel ou ao risco de ataque. Esses animais desempenham um papel fundamental na manutenção da biodiversidade e contribuem diretamente para a nossa segurança alimentar. Protegê-las significa promover uma convivência mais consciente com a natureza, reconhecendo tanto sua importância ecológica quanto a necessidade de prevenir acidentes. Afinal, cuidar das abelhas é também cuidar das florestas e dos alimentos que consumimos. E essa responsabilidade não cabe apenas às autoridades. Cada um de nós pode contribuir, por exemplo, cultivando plantas nativas que lhes ofereçam alimento. Para quem deseja conhecer melhor a diversidade das abelhas sem ferrão brasileiras, o site Abelha — Atlas da Meliponicultura no Brasil disponibiliza um mapa interativo com informações sobre as espécies com potencial para a criação em cada estado. Conhecer é o primeiro passo para conservar.




Cynthia Lima é professora de Ciências no Ensino Fundamental do Colégio Presbiteriano Mackenzie Agnes, no Recife. Possui formação em Biologia (bacharel/licenciatura) e é Doutora em Oceanografia.


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Post Bottom Ad

Pages