Poeta, ensaísta, tradutora e especialista em literatura clássica, a canadense é reconhecida por criar diálogo entre textos da Antiguidade e temas contemporâneos, com narrativas que transitam entre a prosa e a poesia
A canadense Anne Carson recebeu, na manhã desta quinta-feira (8), o prêmio Nobel de Literatura de 2026. No anúncio oficial, a Academia Sueca destaca que a poeta, ensaísta e tradutora foi escolhida “por sua obra ousada e inventiva que, em um diálogo lúdico com a tradição clássica, criou novas formas para a literatura contemporânea”. Há alguns anos Carson aparecia nas listas de favoritas para a láurea, que representa o prêmio de literatura de maior prestígio mundial. A canadense receberá 12 milhões de coroas suecas, o equivalente a, aproximadamente, R$ 6 milhões. Ela é 19ª mulher a ganhar o Nobel de Literatura, de um total de 123 laureados.
Autora de 13 livros, Carson ficou reconhecida por seu estilo híbrido. Sua literatura mistura poesia e prosa em criações que combinam histórias contemporâneas com mitos gregos. Entre as obras de maior destaque está a Autobiografia do Vermelho: um romance em versos, publicada no Brasil em 2021, pela Editora 34. No romance, a autora recria um poema grego sobre Héracles, imaginando Gerião como um adolescente gay com asas, que vive nos dias atuais e se apaixona por um jovem rebelde chamado Héracles.
“A escolha de Anne Carson para o Nobel de Literatura de 2026 tem um significado especial para quem se dedica aos estudos do mundo antigo”, afirma o docente Marco Aurélio Scarpino Rodrigues, da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp (FCLAr), câmpus de Araraquara. “Sua obra mostra, com rara intensidade, como a tradição grega permanece um terreno fértil para a criação literária contemporânea”, completa o pesquisador, que é líder do Grupo de Pesquisa e Extensão Giz-en-Scène e membro do Grupo Visões da Antiguidade Clássica (LINCEU).
Em 2001, Carson se tornou a primeira mulher a ganhar o prêmio T. S. Eliot, por sua coletânea A beleza do marido: um ensaio ficcional em 29 tangos, publicada no Brasil em 2024 pela editora Bazar do Tempo. Além do trabalho com prosa e poesia, a autora também traduziu literatura grega antiga e atuou como professora de estudos clássicos por mais de 30 anos, passando por instituições como a Universidade de Princeton, a Universidade de Nova York e a Universidade McGill, em Montreal.
Para Jéssica Ka Yin Tan, mestre em Literatura Comparada e Estudos Culturais pela Faculdade de Ciências e Letras da Unesp, câmpus de Assis, o reconhecimento de Anne Carson demonstra como as perspectivas filosóficas da autora serviram para consolidar novas formas de ler e refletir criticamente.
“Ela (Anne Carson) estabelece um diálogo criativo com a tradição clássica, criando novas formas de literatura contemporânea que desafiam e subvertem as classificações convencionais entre os gêneros”, diz a jovem pesquisadora, que investigou a autora durante o mestrado, com foco no livro Eros, o doce-amargo.
Nascida em Toronto, no Canadá, em 1950, Carson teve seu primeiro contato mais aprofundado com a literatura grega ainda durante o ensino médio. A laureada desenvolveu seu interesse por obras da antiguidade quando viu uma edição bilíngue de Os poemas completos de Safo, de Willis Barnstone.
Na escola, uma de suas professoras soube desse interesse e se ofereceu para ensinar-lhe grego durante o horário de almoço. Em depoimentos públicos, Carson afirma dever sua carreira e sua felicidade à professora Alice Cowan, da Escola de Ensino Médio Port Hope.
Perseguindo sua curiosidade, a autora estudou literatura clássica na Universidade de Toronto, onde concluiu a graduação em 1974, o mestrado em 1975 e o doutorado em 1981. Também passou um ano na Universidade de Saint Andrews, na Escócia, estudando métrica e crítica textual gregas.
“Eu acho que as obras gregas estão entre os textos literários mais instigantes que alguém já produziu”, afirmou a laureada para o jornal literário Brick. “Mas também há a atividade mental de estar dentro de uma tradução, algo que simplesmente adoro. É como resolver um jogo de palavras cruzadas interminável, mas com um produto valioso ao final. E esse estado mental de estar resolvendo um quebra-cabeça é simplesmente a melhor coisa”, afirma.
Sua formação acadêmica ampara a forma como Carson encara a relação entre textos antigos e contemporâneos em sua produção. Para a autora, os textos antigos não estão distantes da vida contemporânea. Mitos, poemas e tragédias gregas funcionam como matéria-prima para investigar questões que continuam presentes no mundo atual, como amor, desejo, violência, perda, identidade e sofrimento.



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