Lula e Flávio Bolsonaro se enfrentam no domingo no primeiro turno de uma eleição que está testando a democracia.
O editorial é publicado por El País, 01-10-2026.
Eis o editorial.
Os brasileiros vão às urnas neste domingo para decidir muito mais do que quem ocupará o Palácio do Planalto pelos próximos quatro anos. Em jogo está se o gigante sul-americano conseguirá continuar avançando como uma potência democrática e regional ou se corre o risco de retroceder.
O Brasil chega a estas eleições apenas quatro anos depois de sofrer a mais grave tentativa de minar sua ordem constitucional desde o fim da ditadura. A disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro coloca frente a frente duas visões de mundo opostas. O pior cenário seria um desfecho que mergulhasse o país de volta ao autoritarismo, em um continente onde a ascensão da extrema-direita, alinhada a Donald Trump, ameaça sabotar o equilíbrio de poder e o Estado de Direito.
Lula busca um quarto mandato após retornar ao poder em 2023 com a promessa de reconstruir as políticas sociais, reduzir a desigualdade e reparar os danos causados às instituições e à coesão social durante os anos de Jair Bolsonaro. Seu governo pode se orgulhar de progresso social real e de um desemprego historicamente baixo. E embora simplesmente se apresentar como um baluarte contra o Bolsonaro não seja suficiente, toda a América Latina e grande parte do mundo estarão de olho no Brasil nos próximos dias, porque a escolha é clara e as consequências terão repercussões muito além de suas fronteiras.
Flávio Bolsonaro se apresenta como uma versão mais moderada de seu pai, mas sua candidatura é indissociável do projeto político que seu clã familiar representa. Jair Bolsonaro cumpre pena de 27 anos e três meses por conspiração para impedir a posse de Lula após as eleições de 2022. O atentado de 8 de janeiro de 2023 contra a sede dos três poderes demonstrou a que ponto o desprezo pelas normas democráticas pode levar.
A promessa de Flávio Bolsonaro de perdoar seu pai por esses eventos torna esse legado obscuro uma questão central na campanha e não deixa dúvidas sobre o que será decidido neste domingo e no segundo turno, marcado para 25 de outubro. O candidato também enfrenta seus próprios problemas legais: a Polícia Federal abriu um inquérito neste ano por supostos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro, acusações que ele atribui à perseguição política.
Nada está decidido. Lula entra na reta final com vantagem, mas as pesquisas indicam um empate no segundo turno. Diante de um governo Trump que fortaleceu seus laços com governos e movimentos conservadores na América Latina e reviveu a antiga doutrina imperialista do "quintal", o Brasil constitui um contrapeso diplomático crucial. Seria um erro desperdiçar essa influência e renunciar a esse papel.
Lula, símbolo do progressismo global, defendeu a autonomia estratégica e o multilateralismo, prioridades que o filho de Bolsonaro sabotaria para se alinhar a Trump. E, acima de tudo, há a força de uma democracia que, há apenas quatro anos, passou por um teste extraordinário que jamais deveria se repetir. O Brasil demonstrou, então, que suas instituições podiam resistir. Estas eleições medirão as lições que o país aprendeu com essa experiência desastrosa.



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