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terça-feira, 27 de outubro de 2026

Eleições no Brasil: muitos cientistas expressam alívio com a vitória surpreendente de Lula

Organizações científicas brasileiras se mobilizaram em apoio ao presidente, que contrariou as expectativas ao derrotar seu adversário no segundo turno. “O grande desafio do novo mandato [de Lula] será transformar suas políticas científicas em avanços duradouros, garantindo que o Brasil não seja apenas espectador das transformações globais, mas um participante ativo na produção do conhecimento e nas decisões que moldarão o futuro do planeta”, afirma Francilene Garcia, presidente da SBPC, em reportagem da revista Nature

Maira Erlich/Bloomberg via Getty Images


O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, venceu sua disputa pela reeleição em 25 de outubro, para alívio de muitos cientistas que temiam pelo futuro da pesquisa brasileira caso o candidato de direita Flávio Bolsonaro saísse vitorioso.


Nas últimas semanas, algumas das principais organizações científicas do Brasil, incluindo a Academia Brasileira de Ciências, sediada no Rio de Janeiro, divulgaram uma carta aberta em apoio a Lula, ex-líder sindical de esquerda. O documento recebeu mais de 20 mil assinaturas. “É difícil expressar o quanto a comunidade científica e a sociedade brasileira estão felizes com a vitória de Lula”, afirma Paulo Artaxo, físico da Universidade de São Paulo.


Muitos temiam que, caso Bolsonaro fosse eleito, ele pudesse reduzir drasticamente o apoio à ciência brasileira e enfraquecê-la, como fez seu pai, Jair Bolsonaro. Jair foi presidente do Brasil entre 2019 e 2023 e, durante esse período, cortou recursos destinados à ciência e adotou um discurso anticientífico durante a pandemia de covid-19, colocando em dúvida as vacinas e promovendo tratamentos sem eficácia comprovada. O ex-presidente ficou impedido de concorrer novamente porque foi condenado à prisão por uma tentativa de golpe de Estado que articulou após perder a disputa pela reeleição para Lula, em 2022. Atualmente, cumpre a pena em prisão domiciliar por questões de saúde.


A vitória de Lula ontem foi surpreendente: ele conquistou 51,8% dos votos, contra 48,2% de Flávio Bolsonaro. No primeiro turno, realizado em 4 de outubro, Lula ficou atrás de Bolsonaro, mas, como nenhum dos candidatos alcançou 50% dos votos válidos, foi necessário realizar um segundo turno. “Foi muito emocionante acompanhar essa virada histórica”, afirma Sidarta Ribeiro, neurocientista da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, em Natal.


A vitória de Lula ocorreu ao final de um dia eleitoral tumultuado. Pouco antes do horário previsto para o encerramento da votação, um ministro do Supremo Tribunal Federal determinou que as urnas permanecessem abertas por mais duas horas. A medida foi solicitada pelas campanhas de Lula e Bolsonaro devido a problemas no transporte público que dificultaram o deslocamento dos eleitores até os locais de votação. Em um breve pronunciamento ontem, Bolsonaro afirmou que não aceitaria os resultados.


Apoio à ciência


Este será o quarto mandato de Lula como presidente do Brasil, um recorde no País. Ele governou inicialmente por dois mandatos, entre 2003 e 2011. Durante esses períodos e em seu mandato atual, iniciado em 2023, Lula promoveu a expansão das universidades federais e iniciativas para ampliar o acesso ao ensino superior a diferentes segmentos da população brasileira, apoio que prometeu manter. Em 2024, também lançou um programa que trouxe de volta ao País cerca de 600 cientistas brasileiros que estavam em instituições internacionais, para onde alguns haviam se mudado em busca de melhores condições de financiamento e infraestrutura.


“Lula afirmou de maneira muito clara em seu discurso de vitória que precisamos fortalecer as universidades e os institutos federais e melhorar significativamente a forma como preparamos os jovens para um novo mundo de [inteligência artificial] e robótica”, diz Ribeiro.


Flávio Bolsonaro havia prometido transferir a gestão das 69 universidades federais brasileiras do Ministério da Educação para o Ministério da Ciência e Tecnologia, que dispõe de um orçamento muito menor. Além disso, afirmou que daria prioridade às ciências aplicadas em detrimento da pesquisa básica, o que preocupou parte da comunidade científica, pois “os países que mais avançaram na ciência são aqueles que possuem uma base extremamente sólida em pesquisa básica”, afirma Ribeiro.


Outra importante fonte de preocupação para alguns pesquisadores durante as eleições foi o futuro das políticas ambientais brasileiras. Sob a presidência de Lula, o desmatamento na porção brasileira da Floresta Amazônica caiu para o menor nível desde o início das medições, em 1988. Entre 2019 e 2023, entretanto, o desmatamento aumentou quase 60% durante o governo de Jair Bolsonaro, e esperava-se uma tendência semelhante sob a presidência de seu filho. A Floresta Amazônica é considerada um dos maiores sumidouros de carbono do mundo, mas estudos sugerem que o aumento do desmatamento pode levá-la a liberar mais carbono do que absorve.


Durante a campanha recente, Lula afirmou estar comprometido em acabar com o desmatamento no Brasil até 2030 e reduzir as emissões de gases de efeito estufa do País em conformidade com o Acordo de Paris, firmado por diversas nações há quase uma década para combater as mudanças climáticas. “O plano de governo de Lula é muito claro: ele trabalhará para alcançar o desmatamento zero na Amazônia e implementar programas de transição energética que ponham fim ao uso de combustíveis fósseis no Brasil”, afirma Artaxo.


Desafios pela frente


Os cientistas agora voltam suas atenções para o próximo mandato de Lula, na expectativa de avanços ainda maiores no financiamento da ciência. Após um período de queda durante o governo de Jair Bolsonaro, os investimentos em ciência e tecnologia começaram a se recuperar sob Lula, aumentando cerca de 23% em 2023 e outros 9% em 2024, segundo uma análise. Mas alguns cientistas afirmam que esse crescimento ainda não foi suficiente.


“Lula recuperou o financiamento da educação e da ciência, mas os recursos ainda são insuficientes”, afirma Helena Nader, bióloga molecular da Universidade Federal de São Paulo e presidente da Academia Brasileira de Ciências.


Os pesquisadores preveem que o presidente reeleito enfrentará dificuldades para trabalhar com o Congresso Nacional, que passou a ser dominado por políticos de direita em decorrência dos resultados das eleições de 4 de outubro. “O Poder Legislativo tem um peso considerável no Brasil e, no próximo ano, teremos um Congresso muito menos interessado em ciência e educação do que o anterior”, afirma Nader.


“O grande desafio do novo mandato [de Lula] será transformar suas políticas científicas em avanços duradouros, garantindo que o Brasil não seja apenas espectador das transformações globais, mas um participante ativo na produção do conhecimento e nas decisões que moldarão o futuro do planeta”, afirma a engenheira Francilene Garcia, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).


DOI: https://doi.org/10.1038/d41586-026-03446-9

Mariana Lenharo — Nature

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