Fanatismo político toma conta das polícias - Blog A CRÍTICA

Últimas

Post Top Ad

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Fanatismo político toma conta das polícias

Reprodução


Nos últimos dias das eleições, a notícia de manifestação política eleitoral partindo de policiais militares tem revelado a gravidade da doença chamada bolsonarismo. Logo no início do primeiro turno, em Aracaju/SE, um policial atirou para cima durante manifestação de estudantes em apoio a Lula. Agora tivemos dois casos aberrantes: em São Paulo, PMs vestiram traficantes de drogas com camisas do PT para fazer campanha negativa; e no Maranhão, um Secretário de Segurança Pública de uma cidade que também é PM determinou a prisão de petistas numa fala fanática.


Na medida em que integrantes de uma força armada passam a usar as armas do serviço público em posições políticas, estamos no caminho do governo do arbítrio. A fraude bolsonarista quis difundir no Brasil que há uma ditadura do Supremo Tribunal Federal, o que é impossível em razão de o poder judiciário não ter controle sobre os fundos públicos e não dispor do comando de nenhuma força armada. O movimento subversivo confunde a opinião pública nacional para colocar nos outros os seus próprios objetivos.


Depois de um longo processo de estigmatização do Lula como corrupto, os corruptos mais inescrupulosos subvertem a boa vontade de parcela considerável da sociedade em torno do projeto autoritário e golpista do facínora Jair Bolsonaro e seus filhos delinquentes. O Lula propôs a abertura dos sigilos dos candidatos no segundo turno e Flávio fica inventando novos critérios porque sabe que, se abrir o sigilo, vai preso.


Caso 1: Sergipe — o tiro como instrumento de intimidação política


Em 8 de outubro de 2026, à noite, em frente à Universidade Federal de Sergipe, em Aracaju, acontecia um ato político pró-Lula organizado pelo centro acadêmico. Um policial militar de folga — identificado como o sargento Manoel Messias dos Santos — estacionou o carro próximo à aglomeração, desceu armado e, segundo testemunhas, disparou para o alto, provocando corrida e pânico. Ninguém se feriu, mas o ponto central do episódio não é se a bala atingiu alguém: um integrante da força armada do Estado usou a arma como veículo de um recado intimidatório dirigido a uma reunião política específica.


O policial foi afastado, teve a arma apreendida e submetido a exame de resíduos de disparo. A reação administrativa é adequada em si, mas não esconde o problema mais profundo: um membro de uma instituição que deveria garantir a segurança de manifestações escolheu, fora do serviço, intervir com fanatismo político pessoal em um ato pacífico — e a arma que carregava veio do arsenal do Estado. O tiro, aqui, não é ato de policiamento: é expressão política. A mensagem transmitida é que, quando parte da tropa se identifica com um lado do espectro político, o espaço de manifestação do outro lado pode ser disperso a tiros.


Caso 2: São Paulo — a encenação humilhante para fabricar estigma político


Em 21 de outubro de 2026, no bairro Vitória Pantanal, em Piracicaba, a Polícia Militar prendeu dois homens (de 21 e 24 anos) por tráfico e apreendeu um adolescente de 17 anos. Depois, vieram a público fotos em que os três detidos aparecem vestindo camisetas vermelhas com a inscrição "Professores da Apeoesp com Lula". As imagens foram publicadas no Instagram pelo então senador eleito Guilherme Derrite (ligado ao campo bolsonarista), com elogio à ação policial e defesa da redução da maioridade penal.


O fato decisivo vem da mãe do adolescente apreendido: ela afirma que o filho vestia uma regata azul no momento da prisão, e não a camiseta do PT. Duas mulheres do mesmo bairro relataram à deputada estadual Professora Bebel (PT) que policiais militares as abordaram naquele dia exigindo a entrega de camisetas do mesmo modelo pró-Lula, dizendo "precisamos de três". Segundo o relato, um dos policiais chamou o PT de "partido vagabundo".


A natureza da operação precisa ser nomeada com precisão: não é apenas excesso policial, é produção de prova visual. Vestir suspeitos de tráfico com a marca de um partido e fotografá-los produz um efeito de propaganda: o observador associa, no plano da imagem, "PT" e "tráfico de drogas". O compartilhamento por Derrite completa a engrenagem. A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo diz ter aberto apuração preliminar, mas nega ter recebido boletim de ocorrência formal das mulheres. A gravidade está em que, se as acusações se confirmarem, os policiais não apenas violaram a dignidade dos detidos: usaram o poder de polícia para fabricar material de campanha eleitoral, transformando a máquina de repressão em estúdio de propaganda partidária.


Caso 3: Maranhão — a convocação oficial para prender adversários políticos


O secretário de Segurança do município de Barra do Corda (MA), o sargento da PM James Mota da Silva, teve áudios expostos em que, em grupo de WhatsApp, se dirige a colegas. Num trecho, afirma: "quem é petista é inimigo da polícia, é inimigo da sociedade. Bora prender". Em outro: "Tem a forma de prender legalmente. Vamos prender quem tiver que prender".


Não se trata de conversa privada irrelevante. O autor ocupa simultaneamente dois lugares: secretário municipal de Segurança (cargo político-administrativo) e sargento da PM (integrante de força armada). O sinal enviado aos demais policiais é explícito: no período eleitoral, identificar e prender "legalmente" apoiadores do PT é uma tarefa estimulada. O "legalmente" é justamente o que expõe o problema — a intenção é instrumentalizar o procedimento legal para tornar a identidade política um critério operacional de prisão. Após a repercussão, o governador Carlos Brandão determinou o afastamento do cargo municipal e da corporação, e a bancada federal PT-PCdoB-PV protocolou representação na Procuradoria Eleitoral. Ainda assim, o afastamento veio depois da divulgação viral dos áudios, e não por controle interno prévio: quando o fanático ocupa posição de comando, a contenção tende a depender de exposição externa, não de disciplina institucional preventiva.


O bolsonarismo como caldo de cultura ideológico


Nos três episódios, o pertencimento político dos envolvidos é apontado por veículos de imprensa como vinculado ao campo bolsonarista: o atirador de Sergipe é chamado de "bolsonarista" por organizações estudantis; as fotos de Piracicaba foram difundidas por um senador bolsonarista; o áudio do Maranhão partiu de um oficial que atua num ambiente político de hegemonia bolsonarista. Atribuir cada ato individual exclusivamente a um líder é simplificação excessiva, mas ignorar o ambiente ideológico é preguiça analítica.


Uma característica central desse ambiente é exatamente a narrativa falsa que o texto denuncia: tratar a atuação normal do STF como "ditadura do Supremo". O argumento é vazio — o Judiciário não controla fundos públicos nem comanda força armada alguma —, mas é eficaz no plano emocional: pinta uma instituição submetida à lei como opressora, conferindo aparência de legitimidade à "resistência". Quando um policial acredita que o próprio regime constitucional foi usurpado, fica mais fácil enquadrar sua ação política como "correção" e não como ruptura. Bolsonaro, em interrogatório no STF, chegou a evocar o marco de 1964 para relativizar o conceito de golpe. O efeito capilar dessa retórica é cultivar, na base armada, a ideia de que usar a força para intervir na política não é impensável — é uma forma de "defesa".

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Post Bottom Ad

Pages